Me despedi dos meus discos. Dos meus pijamas. Do teu abraço. Do teu cheiro. Do teu aconchego. Assim. Com um beijo na boca. Dormindo, você beijou de volta. Sorri. Chorei. Bati a porta. E tudo ficou para trás.
Seria mais fácil dizer que foi assim. Não foi. Bati a porta, sentei no chão, costas na parede, lágrimas no rosto. Segurei o choro, levantei.
Mentira. Chorei sentado até que a ideia de você acordar e me demover ficou mais forte. Peguei o carro mais velho, fusca, que só valia como peça de colecionador. Tomei o rumo, sabia para onde estava indo. Sabia o porquê.
Na verdade nunca soube. Mas fui, vim, aqui estou. Não te digo onde. Já te adianto, quero mas não volto. Seria difícil encarar. A covardia. Saí do pior jeito.
Te esqueci. Te esqueci. Te esqueci. Baita lorota. Lembro de tudo o que passamos juntos. Vivo isso desde que dei a partida no carro. Agora, na lembrança, tudo fica mais intenso. Da primeira transa, da última. Do primeiro filme, do segundo e do terceiro. Você disse: Mazzaropi é charmoso. Eu ri.
Lembranças ficam. Felizmente, as lágrimas, essas vão. É choro de alegria e felicidade. Neste momento, me sinto adolescente de filme, jogando rascunhos no lixo. Tinha que ser a mão. Do punho para não ter dúvidas. No PC é mais fácil, basta apertar delete.
Escrevo para te apagar da minha vida. Mentira. Faço para lembrar, ter certeza de que eu não esqueci. Com a esperança covarde de que você também não. Como está Matias? Como estão José e Joana? Como está Clara? E Sandra?
Um dia, quem sabe, assumo tudo. Hoje, ainda não. Não dá. Não consigo. Telefonei, só para ouvir tua voz. Eu desligaria. Mas não deu, o número mudou. Reativei a conta do correio eletrônico. Peço que responda.

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