HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de março de 2009
Rafael Urban<br> Equipe da Folha 
Me despedi dos meus discos. Dos meus pijamas. Do teu abraço. Do teu cheiro. Do teu aconchego. Assim. Com um beijo na boca. Dormindo, você beijou de volta. Sorri. Chorei. Bati a porta. E tudo ficou para trás.
Seria mais fácil dizer que foi assim. Não foi. Bati a porta, sentei no chão, costas na parede, lágrimas no rosto. Segurei o choro, levantei.
Mentira. Chorei sentado até que a ideia de você acordar e me demover ficou mais forte. Peguei o carro mais velho, fusca, que só valia como peça de colecionador. Tomei o rumo, sabia para onde estava indo. Sabia o porquê.
Na verdade nunca soube. Mas fui, vim, aqui estou. Não te digo onde. Já te adianto, quero mas não volto. Seria difícil encarar. A covardia. Saí do pior jeito.
Te esqueci. Te esqueci. Te esqueci. Baita lorota. Lembro de tudo o que passamos juntos. Vivo isso desde que dei a partida no carro. Agora, na lembrança, tudo fica mais intenso. Da primeira transa, da última. Do primeiro filme, do segundo e do terceiro. Você disse: Mazzaropi é charmoso. Eu ri.
Lembranças ficam. Felizmente, as lágrimas, essas vão. É choro de alegria e felicidade. Neste momento, me sinto adolescente de filme, jogando rascunhos no lixo. Tinha que ser a mão. Do punho para não ter dúvidas. No PC é mais fácil, basta apertar delete.
Escrevo para te apagar da minha vida. Mentira. Faço para lembrar, ter certeza de que eu não esqueci. Com a esperança covarde de que você também não. Como está Matias? Como estão José e Joana? Como está Clara? E Sandra?
Um dia, quem sabe, assumo tudo. Hoje, ainda não. Não dá. Não consigo. Telefonei, só para ouvir tua voz. Eu desligaria. Mas não deu, o número mudou. Reativei a conta do correio eletrônico. Peço que responda.


