HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de março de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
O que me consola nessa vida é que cada pessoa também é triste a sua maneira. A mulher do mágico, a mulher do médico, a mulher do mítico - e eles próprios - cada um melancólico e triste, formando uma legião de tristes. Do meu apartamento, vejo as pessoas sozinhas no prédio da frente. Nas melhores horas - as de sorte - flagro todas as pessoas fazendo a mesma coisa. Sempre estão sozinhas, em frente a seus computadores. A cidade tem dois milhões de habitantes, mas não precisava tanto.
Vejo isso e penso no Jamaica, por exemplo. Não sei como se chama, quantos anos tem, se tem pai ou muito ódio no coração. Ainda que eu não saiba nada dele, sei de muita coisa, pois cruzo com ele todos os dias, a caminho do trabalho (eu do meu, o Jamaica do dele). O Jamaica trabalha em uma banquinha de jogo do bicho, penso eu. Eu, no meu íntimo, o apelidei de Jamaica por causa dos longos dread locks que conserva. Na parede do fundo da sua banquinha, existem dois ou três desenhos de Bob Marley, feitos à lapis. Fico imaginando se terá sido o próprio Jamaica o autor dos péssimos traços em suas horas de tédio. Se sim, penso que aquele rapaz de dread locks é feito um adolescente imaturo, fazendo desenhos do ídolo para colar na parede. A mim me entristece pensar que o Jamaica acredita no ídolo. Ele deveria queimar os próprios dreads, comer os desenhos, quebrar seus discos. Digo isso pois, mesmo sem conhecer o Jamaica, tenho simpatia e ternura por ele e seu olhar tristonho.
Todo os dias cruzo com o Jamaica, às 8h32 da manhã. Ou ele está descendo do ônibus, ou abrindo sua banquinha, ou já sentado lá dentro - tudo depende de nossos atrasos. Mesmo nos dias quentes, o Jamaica amanhece com um moletom do Planet Hollywood São Francisco. Isso me dá fadiga, mas penso que ele talvez use o moletom como estratégia para esconder o corpo gordo. Há poucas semanas, o Jamaica pintou as pontas de seus dread locks com as cores da bandeira da Jamaica, cada tufo uma cor. Eu aqui pensando que ele devia incendiar os próprios cabelos e ele me apronta uma dessa. - Você não tem jeito, Jamaica!
Sei que ele me vê. Não quero saber o que pensa de mim. Também não quero que ele saiba o que escrevo dele, mesmo publicando no jornal. Espero que não leia; espero que não se identifique. O leitor pode pensar que sou cruel com o Jamaica em muitos pontos. Embora real, o Jamaica é uma personagem meu. À personagens, não se faz concessão. Se as deixar livres, elas logo estão mandando na gente.
(... mas eu tenho um fraco por personagens, sempre as perdoo. O Jamaica é apenas uma personagem, mas antes disso é um homem. Um homem com um olhar triste. Um dia ainda entro na sua banquinha e
faço um jogo.)


