HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de março de 2009
Thiago Alonso<BR> Equipe da Folha 
Comecei este texto inúmeras vezes, por dias seguidos. Terça-feira ele se chamava "Mais forte" e começava com a linda frase "Eu que nunca lutei por nada..."; no dia seguinte, não tinha nome e parodiava alguns versos de Manuel Bandeira ("Sei que tem gente que bebe cianureto e toma cocaína, outros sorvem tristeza ou sugam alegria", dizia o texto); sua idéia inicial, antes de tudo isso, era - e ainda é - tratar da eterna necessidade de dizer sim à vida, usando trechos de uma antiga crônica de Vinícius de Moraes, um trecho de "Morte em Veneza" e alguma coisa mais que não me recordo - ainda não escrevi pois não consegui encontrar nas obras completas de Vinícius a passagem que quero.
Note: a frase acima é composta de um único período. Para os críticos (se para mim eles houvessem) isso pode representar um erro ou soar como uma cópia malfadada de Proust, este, sim, escritor de períodos que duram parágrafos); para mim, no entanto, a frase que abre este texto é uma metáfora da vida. A palavra "idéia", escrita à moda antiga, com acento agudo, representa a indução ao erro; a citação dos autores representa a verdade da minha fala; a reprodução de textos que não se confirmaram ou não continuam representa a História - minha e da humanidade; o verbo que abre o período representa o futuro; a frase em si, com um único ponto final, quer dizer a Vida, que é um rio corrente, mas com paus, pedras e peixes.
Cada palavra ganha, além do significado contido no período, um ou infinitos significados, de modo que a primeira frase desse texto é o mundo. Toda palavra contém a ideia geral do seu conceito. Lembro-me de Borges falando sobre isso; a palavra "tigre" não representa apenas um animal com a pele de ouro rasgada de sulcos negros e gengiva com a mesma cor do sexo das mulheres. Esta simples palavra (tigre) quer dizer todos os tigres que existiram, seus descendentes e herdeiros; as planícies por onde os felinos correm; as pessoas e bichos devoradas por esses tigres; a existência do choro da mãe de quem foi morto por um tigre e os urubus que devoram as feras já em estado de decomposição.
Comecei a escrever este texto para falar do Jamaica, que eu nem conheço. Meu espaço, contudo, acabou. Fica outra promessa.
P.S.: No momento em que tamborilo esse teclado velho - pléc, péc, péqui - a bem amada está longe, demora a voltar (o tempo corre diferente nos negócios do amor) e isso me comove - assim como me comove a lembrança daqueles versos do Pablo Neruda em que ele promete, naquela noite, escrever os versos mais bonitos do mundo, tão bonitos quanto os que escreve naquele momento. A metalinguagem está completa.


