A timidez encabulada, uma voz em fio que insiste em não sair, prendida dentro da garganta, nózenta; a gente preso na gente mesmo, como se fosse dois. Não sou sabido se ser do interior (e de Terrica, antes de tudo), pequeno, me pegou de ser assim, tão pra dentro, gostador de sombra, de não sair - de nem nunca participar das coisas da vida. Ser do interior faz a gente ser arredio? Bicho? Silencioso? Mas muito disso desse jeito também se deve à Bárbara.
Bárbara foi minha primeira experiência estética - com o belo dela acontecendo na minha frente - e minha primeira experiência com moda (já que tão bonitinha que Bárbara se vestia). Nos idos dias, eu não sabia estética e moda, essas coisas que a gente só se aprende depois, que existem. As perninhas grossas de Bárbara fossem o primeiro livro que eu li. Emoção era o que eu sentia quando via aquelas pernas - douradas, eu acho - saindo dum shortinho tão diferente dos que as moças pequenas, as meninas, usavam em Terra Rica. Bárbara era outra.
A figura de Bárbara era meio forasteira; filha de médico rodador dos Nortões em busca de dinheiro; família nômade, eu acho - não recordo, invento. É que Bárbara tinha um pouco desse jeito do de-fora, desse mistério de quem já viu outras vidas acontecendo, de encantar quem das coisas existentes não sabe muita coisa; de forasteira mesmo, mulher da vida, que absorve sorve a gente, faz a gente querer ser dela, de querer coisas que a gente ainda nem tinha aprendido, isso tudo. Prazeres. Oito anos, só.
Não sei se Bárbara sabia de suas mágicas - nem não imagino de onde surgia sua sabedoria de mulher amadurecida. Nas correrias das molecadas diabas da finada Rita de Cássia, Bárbara ensinava: ‘’Correr? Mas eu posso ir andando...’’. E a gente, os meninos, obedecíamos tanta natureza de ensinar. E Bárbara ia, inventando para mim o desfile de moda antes de eu amadurecer o aprendimento dessa existência. Passarelas? Era o pátio da escola Rita de Cássia, onde Bárbara pisava - e era um pouquinho também meu coraçãozinho.
Foi Bárbara, que muito me ensinou das coisas do existir, que me deu esse jeito para dentro. Foi; sim foi. Foi no dia que eu a chamei pra tomar sorvete e ela aceitou. Chamamento de peito comprimido, com medo. Mas ela aceitou. Ela muito me quis tomar sorvete comigo. O doutor senhor pai dela aprovou. Felicidade era o que tinha dentro de mim - eu era alegre antes de Bárbara existir - quando eu me arrumava para encontrar ela na sorveteria. A melhor roupinha, cabelo penteado demais, na moda. Foi. Fui.
Bárbara não. Nem shortinho, nem as perninhas grossas - nada disso não apareceu. Naturalmente ela não foi. Era natural que não fosse. Do mundo, ela muito tinha que me ensinar sobre as coisas que acontecem dentro da gente. Na sua ausência, muita coisa me foi mostrado por ela; menino chora. Como toda aprendizagem, doeu demais de doído; ela fez eu ser isso, no que eu fosse. Não sei o motivo de sua não ida. Depois disso, minha memória muita não há, só a risada maldosa dos meninos invejosos. Ah, Bárbara, agora eu sei por que o diabo te deu esse nome...

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