HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Em Trica, outro doido que andava pela rua eram dois: o Casal 20. Desses também se falava e a gente via. O tempo para eles, passar é que não tinha passado. Ele usava calça boca-de-sino, bigode, costeletas, camisas estampadas abertas até meio-peito - é do tempo da discoteca, a gente poderia ter falado se a gente soubesse das coisas do mundo, de outras ilhas. Ela tinha uns vestidinhos de menina-moça antiga, daqueles rendados, branquinho e de rosinhas salpicando em meio ao todo. Era sempre a mesma roupa, sempre sujenta, a mesma briga sempre é que era. Não se largavam o 20 e não paravam de brigar, de dicustir, de falar alto para se ouvir do outro lado do muro? Não. Ó-o-Jaisão-aí-ó, falava a meninada, já correndo pra ver. Com eles não se mexia, ou se mexia pouco: eles eram só pra ver mesmo a doidice acontecer sozinha.
O Casal 20 não lembro de qual era a história deles. Da boca da molecada o que se ouvia era que eram mãe e filho - ela era velha, ele mais novo -, que eram amantes, que eram um monte de coisa. O nome dela eu não lembro - Dona Maria, talvez - o dele era Jaisão, Jairzão, Jasão (agora eu sei que é nome de herói grego, mas em Trica não entrava nem Argo, nem Ítaca). A Dona Maria morreu faz tempo, e agora o Jazão anda sózim, mas não menos doido, já que ficou com a doidice da mãe de herança. Herdagem de doidura, pois bem.
Outros doidos (porque é diferente ser doido de ser louco) existiam - e ainda hão - em Terra Rica. Tinha o Figuinha, que era meio anão e tinha uma barriga enorme e umas orelhas pontudas, quase de lobizhomem. Sua sandice não sei, então não posso falar. O Ney não era doido, ainda que se dissesse que era. Ele era retardado (maldosidade que se falava e que hoje não pode), mas pra o povo de lá, coisica qualquer na cabeça e pá!: doido. O Ney tá vivo, ainda, mais lúcido e sabido que nunca. Não envelheceu nada nem.
Mas doideca, doidiva mesmo era a Creusa, que era louca porque o doutor Umberto tinha dito (não sei se foi ele que disse e se foi dito mesmo, mas acho que a história fica mais História com esse dizer). A Cleusa morava perto da casa da vó, tinha corte de cabelo, cabelo preto, de menino, era uma menina doce, mesmo sendo velha, e falava mais que o homem da cobra. Nem ser doida ela não parecia muito não que era. Ainda assim, nem sei se ela foi Mulher.
Essa ninguém mexia, já que a gente sabia que era doida mesmo. Todo mundo gostava dela. Um dia a gente mexeu sem saber - para saber se era verdade sua loucurice. Pra Cleuza doidar, era só gritar Ô-pé-de-abacate!, o quê que ela endoidava de ouvir isso. Saber a gente não sabia o motivo. A gente falou isso só uma vez para ela. Não precisou muito pra ela desatar, desatinar mesmo, perder o tino muito. Nunca mais chamamos, mas naquele verão ela que ficou sendo, pra-sempre, a Pédiabacate.
A Creusa morreu esses tempos, dissessem. Como morava só sozinha, demorou três dias pra feder, para que então dessem falta de Creuza. Em Terra Rica é assim, a doideria tá na rua, cada-um-por-si. Cada terra, rica, vai tendo, criando sua mitologia. Viver tem dessas coisas. Doideca demais.


