HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
Tem lugar que o chamamento é piá; há local que guri é a palavra pra dizer; em Terra Rica, o nome de chamar menino pequeno é moleque. Se se perguntasse "Quem tá lá?" "Tá toda a molecada" se se respondesse e a gente sabia que estava. Muita molecada existente, isso é que era em Trica. E a gente lá no meio, sendo mais um. Era uma legião de molecada, sempre juntada, sempre separada.
Dentro de Terrarriquinha, havia a reunião da molecada dentro do clube, da Piscina, como era como a gente chamava o clube de Terra Rica. A Piscina era um mundozinho dentro do mundinho que era a cidade. Era lá que acontecia tudo - tinha a escola Rita de Cássia também, mas nessa não havia campo de futebol. Mas ninguém falava jogar futebol, assim como ninguém referia piá à moleque. Lá era molecada que era e a gente jogava bola - a gente sabia das coisas.
Golzinho, gol-a-gol, rebatida, estirão, linha, classe, de-salão, de-campo, dois toques, paredão, campeonatim, dibrinha; a gente nomeava esses nomes, sem nem saber o que deveriam significar. Todo dia: o futebol era nossa religião, nossa santa missa, nosso jeito de saber que Deus existia, sem nem pensar nEle. A gente que era ruim, gol era milagre.
Todo sempre era isso (e acabou): Ia para Rita de Cássia, ia pra casa engolir qualquer comida, ia pá Piscina jogar bola. As bicicletas, essas ficavam montoadas, embaralhadas na entrada. A bola, o primeiro chegante pegava emprestada do clube - mas tinha que devolver; quem chutava pras vacas tinha que pular cerca pra buscar.
Ia todo mundo: o Hélinho, um gordão-balão de dente roente; um outro que era descendente de árabes e bonachão e engraçado mas briguento quando chamavam o nome da mãe dele de besteira por que ela era finada; dois irmãos gêmeos que diziam tomar gardenal pra não ficarem loucos; o filho do prefeito, que era um bom amigo magrelão alto; o Eltim, com sua mão birruguenta; o irmão dele, com sua cara caveiral, soturno; às vezes, até o Ditão (hoje já é morto ele), que era um preto que não era sócio da piscina, ia, pulando o muro, escondido do porteiro, entrando no meio das outras molecadas.
Era jogo, era briga. Porrada também. Amizade marcada a ferro e guerra, é assim que existe amizade de moleque. Amigo é também imigo, zangão, hoje é aperto de mão e amanhã é ferrão, ferroada, zoação zuada. Assim que é e assim que tem que ser sendo. Amizade de escolamento.
Nessa guerra, assim que os dias passavam, e passaram, numa simplicidade simples, doída mesmo de lembrar. Que é que tudo acontece, meu Deus? Eu nem não num sabia - imaginar? nem sabia da existência dessa criação - mas felicidade era (ainda é) marcar um gol no jogo dos meninos grandes.


