Doidice demais. Estar vivendo tem dessas coisas, idéias, ideias, ideais. E relembranças também. A vantagem de se ter uma meninice em cidadezinha é que a gente nem precisa saber das coisas do mundo de lá-fora. Em cidadinha, não tem essas coisas de do-mundo, tem só a gente encerrado na gente mesmo, do interior - nos meus idos tempos não tinha o mundo, só aquele micromundo, mundozinho, mundinho, mundim. Em Terra Rica, terra minha de nascença, o bom de se viver lá é saber quem é quem - as prostitutas, os ricos, os artistas, os doidos. Em cidadeca, a gente sabe das pessoas de ver na rua, de ouvir estórias e encontrar na a Avenida.
Lá em Terra Rica, a gente via os doidos andando na rua, sabia da suas sandices, ainda que não visse as doideiras. Uma galeria de lunáticos, isso que tinha lá. As pessoas falavam e a gente, criança, ouvia - acreditava; quem mais falava as histórias eram os moleques.
A Neuza Doida subia e descia a avenida de bicicleta; bicicletava o dia inteiro. Chamar a Neusa de Neuza Doida não podia, que era aí que ela endoidava, ensandecia mesmo e saia correndo atrás de quem falasse. Toda a molecada já tinha feito isso, gritado "ô-neuzadoida!". Ver fazer chamar de real, visto ninguém tinha. "Eu também já chamei", mentia.
Neuza era doida por que tinha matado o pai, a mãe e mais - não lembro, invento. Tinha matado de faca, facão, tudo num dia só. Era o que se falava - é o que eu me lembro. A Neuza Doida tinha - tem - uma cara amassada, assim, de se estranhar. Não sei se sabe rir com boca sempre pintada de rubro sangue, cor do sangue da família - mas isso os meninos não inventavam. Sem sorrisonho, só pode ser sandecida, sei. Cara de maluca, isso sim.
Neuza Doida é só a primeira das doidas da minha cidade. Depois eu vou contando.

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