Uma mulher morre após ser jogada para fora de um ônibus superlotado. A imprensa começa a bater na tecla da falta de estrutura no transporte público, poucos ônibus e cheios. Mas alguém especula se a mulher gostava ou não de andar de ônibus. E daí?
O fato de ela não reclamar do meio de transporte não minimiza em nada o fato de ela ter morrido por causa dele. Eu adoro sorvete, mas espero que ninguém dê declarações de que eu morri feliz porque fui envenenada ao tomar um picolé num dia de calor.
Ainda que esse fosse o caso, se realmente ela nunca abriu a boca para xingar o motorista que acha que dirige um veículo de transporte de carga, aposto que o sofrimento da família não é menor ao constatar essa informação. Ela morreu atropelada pelas rodas traseiras do veículo. Esmagada sob toneladas de ferro, alumínio e gente. E daí se ela não reclamava do ônibus?
Além do que, muita gente sofre em silêncio. Quem nasceu para reclamar da vida, xinga até o passarinho que decide cantar na janela da casa antes do horário de despertar. Quem não nasceu, não acredita que falar mal de uma coisa não muda nada, mas, sim, torna o dia do outro um pouco pior ao se ver transformado em muro de lamentações.
Reclamar de um dia cheio, de uma injustiça no trabalho, da falta de qualidade de vida em nosso país rende conversa. Ajuda a descarregar do corpo um peso que não precisa ser de uma pessoa só. Mostra a insatisfação, a vontade de mudar, de evoluir. Mas, não reclamar não significa o oposto. Não quer dizer que está tudo bem, que as coisas podem continuar como estão. Às vezes só quer dizer que estamos cansados. Até mesmo de reclamar.

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