HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
O dia 16 de junho de 1904 não significa nada para quase todo mundo ainda que signifique muito para muita gente. Há quem aniversaria no dia, mesmo que, acredito, muitas poucas pessoas que nasceram na data e no ano ainda estejam vivas. (Se alguém ler este texto e souber alguém que tenha nascido em 16 de junho de 1904, entre em contato comigo, por favor; alguém que tenha nascido antes, venha até mim, pelo amor de Deus, gostaria muito de saber histórias daquele dia, ouvir memórias daquelas horas. - Estava sol nesse dia? Quantas emoções você sentiu? Que outros detalhes me pode contar?).
A escolha da data, do mês e do ano não é acaso, ainda que tenha sido quando aconteceu. Eleita para fechar o ciclo "Câncer", que venho publicando descompromissadamente, tampouco. Desse dia - 16 de junho de 1904 - sei de muita coisa de Bloom: lembro do aroma de fígado que saiu de sua boca depois do café da manhã; recordo a descrição dos cheiros quando ele anda pela rua; de seu afeto por Dedalus, do ciúmes e amor por Molly, etc. Ainda assim, não lembro e não entendi muita coisa. Falo de "Ulisses", o livro de Joyce.
Cito o cânone literário não para ser amostrado (gíria comum no Nordeste, mais especificamente em Recife, para definir quem quer aparecer), ainda que também o seja - mas só de certa forma. Cito a obra pois uma lenda (ou verdade) a ronda e me emociona por demais. Diz-se que o livro, o maior escrito no século XX (se não o compararmos, por exemplo, a "O Som e a Fúria", de Faulkner, a "Grande Sertão: Veredas", de Rosa, a "Esperando Godot", de Beckett, a "Ficções", de Borges, ou outros, etc.), foi pensado por Joyce como uma presente para sua mulher e que data de 16 de junho de 1904 foi o dia em que se encontraram pela primeira vez. Se há um presente maior de um homem para uma mulher que "Ulisses", eu não conheço. Não sem inveja, gostaria eu de tê-lo dado de presente à minha amada - e, de quebra, à humanidade.
Essa história, mesmo que mentira, é tão bem inventada como a própria história do livro. Desconfio que Joyce (ou então deus) a tenha inventado. A história da história (ou lenda) foi a melhor forma que encontrei de negar tudo que escrevi antes, nos outros seis textos, e dizer (ao modelo de Molly Bloom) Sim.


