Eurico era o que podemos chamar facilmente de um vagabundo. Quarenta anos na cara, nunca se dignava a procurar emprego e quando, por um acaso, alguém lhe oferecia um, ele dava um jeito de escapar. Não que bater perna o dia todo pedindo dinheiro e comida nas casas não fosse cansativo, mas ele não concebia a ideia de ter alguém lhe dando ordens. E ter de obedecê-las.
Ele sabia que na rua do morro tinha um velhinho que era ''batata''. Dois reais garantidos para a pinga do fim do dia. Se Eurico desse azar da moça que trabalhava na casa atender a porta no lugar do velhinho, ela se fazia de durona, mas, no final, amolecia e também dava os mesmos dois reais.
Mas, naquele dia, uma oportunidade pareceu irresistível. Estava uma confusão de pessoas para lá e para cá. O velho, aparentemente, não estava. E a dona parecia estressada com outras pessoas que estavam na casa. Ela ia e voltava apressada, enquanto gritava e preparava um prato de comida, sem prestar muita atenção em Eurico. Abriu várias vezes o freezer que ficava fora da casa, visível de onde estava o pedinte.
Ele esperou pelo prato enquanto formulou seu plano. Terminaria de comer. Devolveria o prato e os talheres e ficaria ali por perto fingindo esperar a digestão. Ouvindo os gritos de dentro da casa, teria a deixa para pular o muro baixo e esperaria mais um pouco. Nos próximos gritos abriria o freezer e pegaria o que encontrasse.
O plano deu certo. Surpreendeu-se ao encontrar um peru e um lombo congelado e algumas cervejas. Enfiou tudo na sacola que sempre carregava nas costas, esperou a próxima leva de berros e fez o caminho inverso. Foi para casa mais cedo naquele dia.
Três dias depois voltou à casa do velhinho para pedir outros dois reais. E não se sentia nem um pouco culpado. Em sua cabeça, lembrava, e ria para si, do ditado: ''a ocasião faz o ladrão''. E o rabo de galo daquele dia foi, mais uma vez, garantido.

mockup