HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
André Amorim<br> Equipe da Folha 
Festas de fim de ano são sempre retratadas como momentos de harmonia e fraternidade, onde as pessoas queridas se encontram para comer, beber e consumir. Mesmo que o pano de fundo dessas comemorações seja composto de filas quilométricas, preços absurdos e pelejas diárias em busca das encomendas de amigo secreto, essas são raras oportunidades para rever aqueles parentes que nos conheceram ainda moleques.
Nessas situações, é comum ocorrer revelações bombásticas, como aquela que acometeu a família do Betinho no fim de 2008. Conta ele que durante sua infância, na pacata cidade de Cambará, um dia resolveu aventurar-se no mundo do furto de logomarcas de carro. A operação consistia no seguinte: aproximar-se sorrateiramente de um carro parado e com um canivete arrancar aqueles símbolos da Ford, Volkswagen, etc.
A recompensa por esse tipo de delito (que confesso já ter praticado em tempos idos) não é financeiro, e sim moral. O garoto depois mostra para os amigos o fruto do crime e se vangloria do perigo que enfrentou para conseguir o artefato. Alguns se especializam e fazem coleções dessas logomarcas, mas normalmente depois de duas ou três incursões a brincadeira perde a graça.
Pois o Betinho, como é azarado, não chegou nem a completar seu primeiro furto. Ao tentar arrancar o enfeite, o dono do automóvel surgiu e correu atrás dele, que fugiu deixando para trás sua bicicleta. Como na pequena cidade todos se conheciam, logo o dono do veículo procurou o pai de Betinho para expor o ocorrido e lhe devolver a bicicleta. Convictos da boa educação que deram ao filho, eles negaram todas as acusações e escorraçaram o acusador, que ousava duvidar da moral do menino.
A versão da inocência de Betinho durou até o último natal, quando seus pais resolveram lembrar o causo. "Não foi você né?", perguntaram ao filho ao final da história. "Mas é claro que fui eu gente", revelou para o espanto dos pais, que o protegeram por mais de 25 anos.
Chocados eles o xingaram por alguns minutos e depois foram comer peru. Revelações como essa sempre vão bem acompanhadas com farofa e algumas décadas de distância.


