Poucos antes do ano terminar, visitei uma comunidade alternativa e autogerida em Campo Largo. Com um pé na contracultura e outro na religião, o grupo tira seu sustento da produção de chás, velas, sandálias de couro, pães caseiros, etc. Uma vida simples, marcada pelo desapego aos bens materiais e à valorização da família.
Entre os 50 moradores do lugar, cerca de 20 são crianças. Educadas ali mesmo, elas passam praticamente o tempo todo com os pais. No fim da matéria, publicada no último dia 30, cheguei a comentar que essa proximidade tocou, de alguma maneira, a equipe de reportagem (jornalista, fotógrafo e motorista). Afinal, nossos filhos estavam em creches e escolas, enquanto as famílias da ''tribo'' permaneciam reunidas.
Quando o texto saiu, um colega de redação me questionou se os membros mais novos da comunidade não estavam sendo alienados. E os comparou, de forma bastante oportuna, com as crianças do filme A Vila - cujos pais, desiludidos com o sistema da sociedade, simplesmente se isolaram do resto do mundo, sem sequer contar aos filhos o que realmente há ''do lado de fora''.
Ainda que os pequenos de Campo Largo não estejam tão isolados assim, tive de concordar com meu colega. Mas acabei conectando o assunto à outra matéria que produzi recentemente, sobre o fenômeno da ''garotas nerds''. Sua rotina, como a de milhares de crianças e adolescentes de classe média, resume-se a ir de casa para a escola, da escola para algum curso, do curso para o computador.
Muitos desses jovens não andam de ônibus. Mal veem a rua, pois as janelas do carro dos pais são cobertas por películas protetoras. Na escola, são preparadas basicamente para enfrentar o vestibular. Em casa (apartamentos pequenos ou condomínios superprotegidos), dividem-se entre o Orkut, o MSN e os seriados da tevê por assinatura. Será que não vivem numa espécie de ''vila'' também, apesar de toda a carga de informação recebida?
Não quero soar paranóico, mas começo a achar que, de um jeito ou de outro, todos pertencemos, ou viemos, de algum tipo de vila. Não é à toa que, no filme, uma garota cega é a única capaz de romper as cercas da comunidade e chegar ao ''mundo real''.

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