No meio é o leitor, como o Homem em uma terra com deus, o diabo e sem nada no meio. Imagine esta terra devastada: um palco aberto, nu, feito de poeira; no fundo, quase no firmamento, uma montanha, e, quem sabe, uma árvore seca. De um lado está deus - mas não está vestido de branco - e de outro está o diabo - mas sem um rabo pontudo. São amigos ou vagabundos. Tanto faz.
No meio está o leitor, impassível, em pé, impossível, em pedra, seu nome pode ser Pedro, aquele que me negará três vezes. O leitor é um monolito, um monumento, uma estátua, um edifício, é difícil que saia de sua paralisia, de seu centro, um parasita na santa ceia.
Do lado esquerdo está o diabo, canhoto, sem sorriso malicioso, com olhos em sangue, com movimentos contidos, sem rabo pontudo mas com chifres de touro. Tem mandíbulas fortes, um focinho que aponta para o infinito e uma personalidade catalã. Castanholas - é isso que seus cascos parecem batendo na terra. Da sua boca sai um mugido de dor, sofrível. Sua gengiva tem a cor do sexo das mulheres, suas presas estão gastas e ele parece cansado, ainda que altivo.
Do lado direito está deus, canhoto, com faca nos dentes, com braços de máquinas, musculosos, bonitos, erotizado, regendo a sinfonia do mundo. São desses braços que saem os gênios, as catástrofes, o terror e o amor. São desses braços, desse abdômen de homem que o mundo precisa. Os cabelos de deus são macios, assim como suas mãos são justas. Este deus, que é um homem, parece estar cansado - a utopia do homem que está cansado - ainda que altivo.
Nesta terra estéril estão deus e o diabo: ambos são texto e minotauro. No meio está o leitor: Pedro és pedra onde edificarei a minha Igreja.

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