Tenho um talento. Sempre que tento dar uma de bem-intencionada o resultado é desastroso. Outro dia comprei diversos filmes para meus colegas assistirem numa viagem de ônibus. No fim, parte da platéia odiou o filme e quase fui vítima de uma revolta coletiva.
Poucos dias antes eu tinha indicado uma conhecida para um emprego bacana. Primeiro a moça reclamou que a empresa, uma das maiores do estado, não era ''estável'' o suficiente. Depois acabou me acusando de estar causando a ela um estresse desnecessário no fim do ano. Ter uma proposta de emprego tão atraente não estava nos planos dela.
Mas eis que um dia desses recebi um telegrama. Era do Redome - Registro Nacional de Doadores de Medula. Há mais de cinco anos preenchi uma fichinha de doadora voluntária de medula. As chances de alguém ser chamado pelo Redome é pequena, muito pequena. No entanto, sou compatível com alguém conforme me informaram.
O processo, uma assistente social do Instituto Nacional do Câncer (INCA) me explicou, é lento. Exige mais um exame para confirmar se sou realmente ''a escolhida'' (na realidade são mais duas amostras, mas aparentemente sou tão compatível com essa pessoa que não precisei da segunda). Depois é só esperar até que o médico do futuro transplantado decida quando é a melhor ocasião para a cirurgia.
A minha participação? Bem, é quase insignificante. Vão tirar um pouco da minha medula do osso da bacia, uma intervenção cirúrgica tão pequena que nem exige anestesia geral. E pronto. Não terei que me preocupar já que o processo é todo sigiloso e nunca vou saber quem afinal vai andar por aí com um pedacinho de mim.
Mas o melhor é que todo mundo, desde a assistente social do INCA até o guardinha do Centro de Hematologia e Hemoterapia do Paraná (Hemepar), é de uma simpatia incrível com os doadores. Alguns, a assistente me explicou, se inscrevem no Redome, mas quando são chamados, desistem. Aqueles que vão em frente recebem como recompensa o sorriso de desconhecidos e a satisfação de saber que fizeram a coisa certa.

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