A sensação era estranha. A notícia era de que a casa estava cheia. Supostamente, havia pessoas apinhadas nos dois andares. Lá longe, como se fosse em outra cidade, ouvia-se murmuros e, depois de começado, gritos e aplausos. Mas ainda assim, a sensação era outra. Parecia que não havia ninguém. Não era possível ver ninguém. Nem dava tempo de pensar em procurar alguém. Cada um fazia o que tinha que fazer apenas para si.
A culpa é das luzes. Tão fortes. Ofuscantes. Tinham luzes que piscavam tão intensamente que não víamos nem mesmo uns aos outros. E aí aconteciam os pequenos acidentes. Chutes, socos, joelhadas, arranhadas. Ninguém conseguia enxergar onde acabava si mesmo e começava o outro.
Após a luz e barulho intenso, vinha a escuridão total - o breu - e o silêncio. Do lado de dentro só se ouvia uma respiração ofegante. A própria. Uma troca de roupa urgente. Alguns segundos para beber um gole d'água e enfiar na boca algo de salgado ou doce. O que desse.
Mais algumas repiradas e era hora de enfrentar a escuridão seguida das luzes intensas com o barulho ensurdercedor. Poucos minutos para colocar tudo para fora. Encorporar e sentir na pele a emoção que o momento pedia. Pensar no agora ao mesmo tempo em que o cérebro processava a informação do que devia vir a seguir.
Uma hora e meia desse misto de emoções. Silêncio, barulho, escuridão, luzes ofuscantes. Lágrimas e sorrisos. Dor e alegria. Cansaço seguido de descanso. Nervosismo com satisfação. Ansiedade com fim. Terminou.
Se não fosse pela música e pelos passos, de dentro não parecia um espetáculo de dança. Era como um filme B ruim inspirado de uma poesia abstrata em que os personagens não têm corpos, só emoções. Mas isso, só quem esteve escondido nas coxias e subiu no linólio entende.

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