A história já está até velha, mas é claro que a morte de Marcelo Silva, ex-policial, ex-marido de Suzana Vieira e agora ex-cafajeste, teve em mim maior peso que a morte de Valêncio Xavier, por exemplo. Na mesmo medida que nunca conheci ou li Xavier (eu teria me negado a escrever sobre ele só por isso - o cito apenas como comparação), parece que Marcelo estava incrustado em meu cotidiano há muito tempo, como sempre estivesse estado ali. A ascensão meteórica de Marcelo Silva ao status de celebridade fundiu a cuca - e as narinas - dele. Ele morreu no auge de sua (não) carreira - sim, sempre há humor na palavra "carreira" quando colocada ao lado do nome de viciados em cocaína, ainda que um humor gasto e de mau gosto - e até o fim do texto será esquecido.
Desculpe, leitor, a ironia baixa desse texto ao sugerir elogios a um "canalha". A digressão, no entanto, se faz necessária. Ainda assim, devo argumentar que, como todo brasileiro, tenho uma atração pela figura do malandro, mesmo que eu não o seja e não tenha talento para tanto. Todo brasileiro, porém, tem uma queda por figuras tortas, sem rumo, que se debatem na vida, que passam a perna em todos, que querem estar sempre por cima e do jeito mais fácil. Faz parte da cordialidade brasileira admirar o fetiche da malandragem e sempre perdoá-la com um sorriso. É a tropical melancolia...
Malandros sempre foram nosso forte - e nosso fraco também. Basta recordar Macunaíma (herói sem caráter), a atração de Chico Buarque por figuras cambaleantes, uma constante em suas canções, desde "Juca" (1966), o estandarte de Hélio Oiticica homenageando o bandido Cara-de-Cavalo ("Seja herói, seja marginal"), o belo filme de Rogério Sganzerla sobre o Bandido da Luz Vermelha ou aquele samba do Wilson Batista: "Meu chapéu de lado/ tamanco arrastando/ lenço no pescoço/ uma navalha no meu bolso/ eu passou gingando/ provoco e desafio/ eu tenho orgulho/ de ser tão vadio". Não sei se Marcelão tinha orgulho da sua cafajestice, ainda que a exercesse como poucos e tão abertamente.
Isso faz com que ele já tenha seu lugar nessa galeria de malandros e por vários motivos. Marcelo Silva tinha histórico de violência (tanto física quanto moral) contra mulher - e Suzana Vieira é a encarnação perfeita da "Mulher de Malandro", do Heitor do Prazeres, aquela que quanto mais apanha, mais lhe tem amizade. Depois de ser "demitido" por Suzana, foi acusado de tentar tirar dinheiro de programas populares de televisão para explorar suas próprias mazelas. Declarou amor eterno a amante que o denunciou por violência. Fora seu sorriso metálico e satisfeito nas colunas sociais. Tudo nele é admirável.
Até morrer, Marcelo desempenhou bem seu papel. E ele morreu cedo: teria muito a dar, ainda que nada a acrescentar. Se Obama é a figura planetária de 2008, Marcelão é a personalidade brasileira do ano.
Pode rir agora.

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