HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Thiago Alonso<br>Equipe da Folha 
Se eu digo gozo e ela entende leite, é que compreendemos o deleite de forma diferente: eu, sólido, ela, gasoso. Se digo osso e ela entende dor, é que consideramos ser moço de forma distinta: eu, novo, ela, amor. Se eu digo posso e ela responde não, é que aprendemos os limites em outra educação: eu, ação, ela também.
Se eu digo minotauro e ela não entende nem homem, nem touro, é que instauro o caos e ela organiza: eu destruo, ela ameniza. Se eu prefiro o granizo e ela opta pela garoa, é que escutamos diferente essa música: eu suo, ela soa. Se eu me agarro na esperança e ela prefere o presente, é que percebemos tempo de um jeito diferente: eu marcho, ela dança. Se não tenho escolha entre a angústia e ela entre mim, é que é chegada a hora: eu, cedo, ela, agora.
Eu gozo, osso, moço, novo, touro, caos, macho, conto, couro, suor, gosto, troço, mouro. Ela ora, moça, gás, tempo, amora, Europa, música, alva, chora, cora, demora, desabrocha, flora.
Se eu escrevo este texto e ela me censura, é que ela é sensata e eu vaidoso: eu fracasso, ela triunfa. Se eu digo passo e ela entende câncer, é que em algum momento a gente se mistura: eu vivo, ela mata. Se eu peço cura e ela entende cova, é que ela me assassina e desova: ela cava, eu, cristo.
Se eu digo poesia e ela entende matemática, é que vemos a poética por outro ângulo: eu, única, ela, número. Se eu digo conto e ela entende conta, é que enquanto ela calcula, eu aumento um ponto: eu invento, ela sela. Se eu digo tinta e ela diz pinta, é que em algum momento, finalmente, a gente combina: eu, pinto, ela, tela.


