Em um dia como este, nasceu no asfalto uma flor gigante. Eu era um canário operário, que canta mas não chega a exaustão. Diretamente dos seus dentes: cálcio, calcário, calma, cárie. Seu sorriso quieto. Acendi um cigarro. Dei dois tragos seguidos. Soltei fumaça pelo nariz. É preciso correr o risco.
Maria não acredita em deus. deus, para ela, tem de ser escrito com letra minúscula. Eu respeito a vontade de maria. Para mim, maria tem de ser escrito sempre com letra minúscula. Com letra maiúscula, só o nome de Jesus. O natal me deprime de uma tal forma que considero o verso de T.S. Elliot um erro: abril não é o mais cruel dos meses.
Leio no jornal: Vinte e oito trabalhadores rurais ficaram feridos em um acidente... A liberdade não tem cor: a liberdade é estar comprometido com uma causa. É preciso, acima de tudo, estar comprometido. Lobo da estepe. Cachorros mortos nas ruas.
Ouvi um diálogo que não acreditei. Em uma terra, onde se morre nas estradas, havia um médico que abria o peito dos pacientes em busca do amor. Ele anotava tudo em um pequeno caderno de espirais que imitavam o tempo. Nas linhas do médico, ele dizia que se as veias fossem finas e o músculo molenga, era amor. Se o músculo fosse firme, as artérias grossas, entupidas, era paixão. Eu o entendo, mas ele não considerou a gordura. Cadáver de anjo.
Toda piada é um pouco sem graça, assim como toda graça é um pouco amargurada, assim como toda amargura é um pouco consciente, assim como toda consciência é um pouco falha, assim como toda falha é um pouco verdade, assim como toda a verdade é um pouco falta, assim como toda falta é um pouco alívio, assim como todo alívio é um pouco conforto, assim como todo conforto é um pouco piada.
E toda piada é pouco um câncer - grande, preto, firme, fino, silencioso, triste, bomba de hidrogênio, crescendo em nossos peitos. Não é um seio de silicone que se faz: não é um pouco de amor.

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