HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de dezembro de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Também vou falar sobre o Valêncio Xavier (1933-2008). Trabalhei uns bons anos com ele, em uma daquelas equipes fantásticas que a gente só valoriza quando se separa (ou é separada).
Imerso em seu mundo particular, Valêncio vivia às voltas com novos livros e filmes geniais. Aliás, "genial" era uma das palavras que ele mais usava, inclusive para se definir. O que deixava muitos colegas espumando de raiva, por mais que sua arrogância tivesse uma ponta de humor. Brasileiro, como se sabe, detesta quem não é humilde.
Nas reuniões de pauta, o escritor-jornalista-cineasta-etc só abria a boca para desorganizar e polemizar, no melhor sentido dos dois termos. Como na ocasião em que encerrou uma discussão sobre um filme do Oscar que todos respeitavam por ser "bem-feito". Numa tacada, ele provou por A mais B que a produção não passava de um engodo sem vigor, apenas maquiado às custas de alguns milhões de dólares. Desde então, nunca mais tratei de aspectos técnicos em minhas críticas de cinema.
Mas a lembrança mais marcante que tenho do Valêncio foi a de um evento do qual participamos nos idos de 2004. Editava um caderno especial sobre vestibular (um tema, convenhamos, entediante) e o convidei para comentar a obra de Dalton Trevisan diante de um grupo de garotos. Como era de se esperar, ele fugiu completamente do convencional.
Concentrou-se na violência contida nos textos e, especialmente, nas prostitutas do Passeio Público de Curitiba. Chegou a contar histórias de algumas delas. Uma das participantes do tal "encontro literário", aluna do Colégio Militar, não escondia a carinha de horrorizada. Foi ótimo!
Nunca fomos próximos, então paro por aqui. Com a certeza de que o Valêncio, bem como outros tantos caras "geniais", foram importantes para que eu derrubasse certos muros do pensamento. A lição é simples: só de ousar, você já está na frente.


