Passo na frente da Rodoferroviária todos os dias. Sigo essa rotina há, no mínimo, 10 anos. Quando estou próximo de lá, minha única preocupação é ver no relógio que existe no alto de uma torre se estou no horário certo para entrar no trabalho. Há pouco mais de um mês essa rotina mudou.
Agora, quando estou em frente à Rodoferroviária penso nas milhares de pessoas que passam por lá todos os dias. Penso também nos que dormem nas escadas esperando a chegada do ônibus. Penso nas pessoas que limpam todo o prédio, nos taxistas, nos funcionários das lojas e das empresas de transporte.
Penso que todos eles passaram na frente de uma mala de viagem localizada embaixo de uma escada, sem imaginar que nela estaria o corpo de uma menina. Talvez uma das zeladoras tenha arrastado a mala alguns centímetros para limpar o local, sem imaginar no que havia dentro.
Depois de três semanas tive que comprar passagens de ônibus e fui até a Rodoferroviária. Durante o trajeto pensei o tempo todo no crime. Me encaminhei ao guichê, comprei o bilhete, virei e me mandei. Mesmo querendo ir ao local onde a mala foi encontrada não consegui caminhar até lá.
Olhei em volta. Dezenas de pessoas seguravam malas pequenas e grandes. Os rostos anônimos não revelavam nada. O culpado poderia estar ali, ou do outro lado da rua, em outro bairro, cidade ou Estado. Passado um mês do crime poderia até ter dado uma volta pelo mundo. Ninguém sabe.
Enquanto isso, quando passo em frente à Rodoferroviária meu olhar começa a voltar cada vez mais rápido para o relógio no alto da torre. Se estou adiantado posso relaxar e, ao descer do ônibus, caminhar lentamente pensando na vida. Os ponteiros estão correndo depressa? Então é hora de acelerar o passo e respirar fundo pois a caminhada vai ser longa. Quando vejo, já esqueci da mala. Esqueci dos anônimos com a bagagem na mão, dos taxistas, dos motoristas e funcionários. A rotina voltou. Nada mais me lembro.

mockup