Às vezes dá vontade de enfiar a cabeça no travesseiro e gritar. Daria para gritar sem o travesseiro, mas acho que não seria justo com as pessoas que estão perto de mim. A verdade é que tem horas em que a vida parece ficar quase insuportável. Agora deve ser um desses momentos.
Trabalhando em um jornal diário, lidamos constantemente com notícias de crimes e desgraças. A certa altura, é de se imaginar que uma pessoa possa se, digamos, acostumar com certas coisas. Mas, não. Essa "onda" de mortes de crianças ficou tão perto de casa, que imagino se devo apenas esperar pela próxima. Mas, cada uma das histórias é tão chocante quanto a anterior. Um rostinho de vítima mais bonitinho, amável e querido que o outro.
Eu me lembro de, quando criança, ter medo do "Homem do Saco". Era um ser imaginário usado para aterrorizar a criançada quando aprontava. Ou uma forma de psicologia para temermos os estranhos. Mas, ainda assim, quase nunca pensei nele como uma pessoa real.
Só que, ultimamente, na minha imaginação, ele ganhou corpo, rosto e voz. Ele é o assassino da Rachel, da Alessandra, da Lavínia, da próxima. Ele fez com elas o que eu tinha pesadelos que fizesse comigo. Eu, graças a Deus, nunca vi meu "Homem do Saco", mas elas se encontraram com o delas.
Imagino o que deve ser ser mãe nessa conjuntura. Acho que se eu tivesse uma filha, ou filho, estaria em estado de nervos. Não deixaria meu pequeno sair de casa sem minha supervisão. Teria medo até da sombra. Ah, isso, na verdade, eu já tenho.
Mas, a vida não é assim. Cada um tem que continuar fazendo sua parte. Vivendo sua vida. Tomando as precauções mínimas que nos cabem, deixando o resto para o acaso. Crianças têm que continuar sendo crianças. Sabendo mais sobre esse mundo feio do que suas cabecinhas cheias de sonhos e expectativas mereceriam, mas menos do que precisariam.

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