"Bico calado, muito cuidado, que o homem vem aí!" Se eu fosse um bicho, nunca chegaria perto do ser humano. Essa mesma espécie, que, de tanto se gabar de ser pensante, acabou se transformando em irracional. Chico Buarque é que está certo. Nunca é possível saber quais bípedes são confiáveis. Na dúvida, distância. Atenção passarada, perigo!
Dias atrás, mais uma vez a mão do homem atropelou a natureza. Era um ninho de joão-de-barro, meticulosamente construído no vão de um poste de luz, na esquina da minha casa. Foram dias e dias de trabalho incansável, acompanhados por toda a minha família.
Chuva vai, chuva vem, e o joão estava lá, sempre reconstruindo o que a água tinha levado. Para ajudar, meu pai até montou um telhadinho em cima do ninho em construção, evitando assim novos deslizamentos de barro. Muito feliz com a nova proteção, o pássaro terminou o seu trabalho e vigiava o lugar onde nasceriam seus filhotes.
Tudo ia muito bem até três meninos, que brincavam na rua, resolverem variar as traquinagens. Pedras foram usadas para derrubar do poste o ninho, com tanta dificuldade construído. No chão, três ovinhos quebrados. E nem sinal do casa do joão-de-barro, que foi levada pelos garotos como uma espécie de troféu.
E o pobre do pássaro, desconsolado, passou o resto do dia sobrevoando perto do poste, bicando as cascas dos ovinhos e cantando um canto triste.
Que prazer sádico é esse que faz a criançada maltratar os pequenos animais? O triste é saber que a entrada no mundo adulto só faz o comportamento piorar. Até quando nós continuaremos a ser uma ameaça ao reino animal? Bichos, sigam o que diz a música: escondam-se ao ver um ser que se acha racional!

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