HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Andréa Lombardo<br>Equipe da Folha 
Um amigo me perguntou, certa vez, se eu já havia experimentado sentimento de ódio, intolerância, por pessoas que nem conheço. Conversa insana, eu sei. Mas, na mesma hora, visualizei, mentalmente, a imagem daquela mulher que deparei no ônibus e que tinha um ar irritante. Sim. Eu e meu amigo compartilhávamos sensações semelhantes. Ele achou graça e se mostrou aliviado. Não estava só.
Lembrei dessa conversa outro dia a caminho do trabalho, quando observava os vizinhos aqui do jornal, que passeiam com seus bichinhos de estimação pela ciclovia da Sete de Setembro. Um poodle seguia com o dono alguns passos à minha frente. No sentido oposto, vinha um outro cãozinho com cara de enfezado, cuja raça não saberei identificar no momento. Os donos, antevendo uma reação conflituosa entre os animaizinhos, trataram de passar distantes um do outro. Mesmo assim, o baixinho invocado se esticava todo na direção de seu desafeto, rosnando e mostrando os dentes.
O poodle passou indiferente, assim como seu dono que, logo adiante, ficou apenas observando seu bichinho deixar a caca na grama. Passei por ele indignada. Minha vontade era de rosnar para aquele senhor folgado. "Os cabelos brancos não lhe ensinaram boas maneiras, regras mínimas de convívio em sociedade?", pensei com meus botões.
No restante do trajeto, ri sozinha ao imaginar se as pessoas - que, assumidamente, irritam-se com os desconhecidos, assim como eu e meu amigo -, passassem a rosnar para os que provocam esse tipo de sentimento. Volta e meia eu me vejo rosnando por aí. Como para aquele cobrador de ônibus que, por mais simpática que eu seja o cumprimentando com um sorriso no rosto, não esboça qualquer reação de gentileza e ainda faz questão de me devolver de troco um monte de moedas enferrujadas de cinco centavos. Ou para aquela pessoa inconveniente que insiste em pisar nos meus calcanhares quando estou buscando espaço no coletivo. Poderia fazer uma lista razoavelmente extensa de desafetos anônimos, mas até meus ímpetos de insanidade têm limite. Devaneios à parte, sou uma pessoa do bem. Acreditem!


