HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Karla Losse Mendes<br>Equipe da Folha 
No campinho ao lado do Terminal do Carmo, estavam em condições de igualdade. Eram seis contra seis, o time dos sem-camisa contra o time dos camisas-de-vários-times. Eram iguais, cinco em cada lado mais os goleiros. Torcida, nenhuma ou quase, apenas quatro amigos. No time dos sem-camisa, o goleiro, um tipo grandão, fazia às vezes de técnico.
''Corre mais fulano''.''Passa a bola Rodrigo, não seja fominha''. ''Chuta, chuta, pelo amor de Deus, até minha vó fazia esse gol seu perna de pau''. Eram tantas as ''orientações'' aos companheiros que lá pelas tantas um que havia acabado de ser chamado de ''mulherzinha de salto alto'' perdeu as estribeiras. ''Está bem então, se sabe fazer melhor, faça. Venha para cá que eu vou para o gol''.
''Até que enfim vão ver como se joga'', respondeu o Jorjão, dirigindo-se ao centro do campo para reiniciar a partida. Apesar da nova posição, as orientações prosseguiam. ''Ooooolha a defesa''. ''Passa para mim, passa para mim que eu estou livre''. Menos de três minutos em campo, Jorjão pega finalmente na bola, meio desequilibrado e gooooooooooool. Os companheiros de time não acreditam. Gol contra. Todos partem para cima de Jorjão dispostos a perder a esportiva com o dublê de goleiro-técnico-centro-avante. A turma do deixa disso intervém. Após uma rápida reunião na pequena área decidem apenas expulsá-lo do time, sem qualquer castigo físico. ''Nunca mais volte aqui'', diz um.
Jorjão sai lentamente do campo. O amigo que assistia e agora irá substituí-lo no jogo olha para ele com misto de pena e satisfação. Jorjão ergue a cabeça como quem diz que isso é consequência do esporte e diz para o outro: ''nem esquente o lugar no time. Eles vão me perdoar. Estou cansado de ver o Dunga errar, ele que é da seleção brasileira, e eles perdoam. Quem dirá eu, que sou só a estrela desse timinho''. E joga as chuteiras sobre os ombros, displicente.


