No trajeto entre a casa e o trabalho existe uma rua bastante movimentada. Posso desviá-la, mas encontrei certo prazer em observar os acontecimentos nem sempre agradáveis que acontecem nela. No último mês, numa espécie de estatística macabra, contei um acidente a cada dois dias. Nada sério e ninguém ficou ferido. Pelo menos fisicamente. É que passando por ali e vendo o engarrafamento - causado nem tanto pelo excesso de sinaleiros e mais pela inabilidade dos motoristas - é possível perceber um pouco da emoção de cada pessoa. A maioria quer sempre chegar primeiro, a qualquer custo, e ultrapassa mesmo sabendo que o sinal vermelho vai forçar a parada segundos depois.
Agora a rua está em reforma. Estão trocando o asfalto. Cada dia de um lado da larga avenida. Posso desviar. Mas encontrei certo prazer ao observar a reação das pessoas com a lentidão ainda maior do pequeno trajeto. Não há um só guarda por ali e os motoristas devem encontrar a solução sozinhos. São obrigados a dar passagem para poder passar. São apenas duas quadras de intenso laboratório psicológico. Pelo ronco dos motores é possível perceber a raiva contida - ou não - pela situação. Como se aqueles metros em obras deixassem vulneráveis os próprios sentimentos.
Às vezes acho que estou em obras também e não há uma só emoção dentro de mim disposta a dar passagem para um veículo mais lento. Preciso chegar primeiro. Só não sei a que lugar. Ontem, obrigada a pensar no destino - o de dentro e o da realidade - enquanto enfrentava o trânsito, li uma faixa esclarecedora, instalada pela prefeitura. Dizia: "Para facilitar, procure caminhos alternativos". Agora só falta decidir em qual quadra vou virar à esquerda. Ou à direita. Não há guardas para indicar o caminho.

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