Ela possuía cabelos e unhas das mãos vermelhas. As do pé eram azuis, já desbotadas e descascadas. A calça amarela e a blusa rosa. No pé, sandália gasta, impossível de decifrar a cor original. O rosto não possuía nenhuma parte sem rugas. De pé, encostada em uma das paredes do ônibus, a mulher de aproximadamente 65 anos cantava. Batia os pés no chão de acordo com o ritmo.
As músicas eram próprias e todas abordavam as peripécias sexuais de piás e gurias. A voz forte aguentava cantar uma longa estrofe sem parar para respirar. No final ainda engatava uma sílaba arrastada durante alguns segundos.
A opinião dos passageiros não era unânime. Uns riam por achar graça da senhora sem vergonha. Outros nem olhavam, sequer exibiam algum riso na cara. A cantora gostava quando percebia a reação feliz de alguns. Na frente do ônibus um grupo de adolescentes gritava e tirava ''sarro'' da mulher. Ela gostava.
''Vocês gostam de música piazada''? ''NÃO. POR FAVOR NÃO CANTE MAIS''. E logo em seguida ela continuava cantando: ''A piazada olhando pra menina que rebolava e sapateava a safada saracoteava e blá blá blááááá''. A voz rouca de anos no cigarro dificultava o entendimento de toda a letra.
Parada na estação central. Quase todos os passageiros descem. A mulher fica e joga o cabelo para trás. Os dedos azuis e vermelhos, com a calça amarela e a blusa rosa se preparavam para mais uma apresentação no transporte público de Curitiba. Arte para a massa.

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