Eu, quando criança, tive um melhor amigo que se chamava Everton, mas na rua chamávamos ele mesmo de Tom. Tom talvez tenha sido o melhor amigo que eu pudesse ter tido. Quase pouco me recordo dele, só da sua cara boa, de seus cabelos bem lisos e de nós dois sujos, depois do dia inteiro na rua, mais imundos que a própria terra. Não sei sua voz como era e não rememoro muito de seus gestos. Não sei se seríamos amigos hoje, depois de 15 anos. Lembro que ele tinha um sorriso bonito - dentes branquíssimos.
Não sei onde Tom estava nessa primeira semana de novembro deste 2008. Não imagino o que ele sentiu quando recebeu a notícia de que nos Estados Unidos do Norte o povo norte-americano elegera Barack Obama como o presidente daquele País. Se bem me lembro e conheço Tom, ainda que separados pela distância dos anos, creio que também ele tenha ficado feliz. Eu espero isso de Tom. O preto Obama eleito o primeiro presidente preto daquela nação.
No domingo de Finados, obviamente que torci à favor de Massa e contra Hamilton. Vibrei com o campeonato de algumas dezenas de segundos, ou meia volta, de Massa. Gritei na janela uma felicidade que não era muito minha mas que não consegui conter. Fiquei decepcionado com o resultado final, ainda que, pensando bem (e o pensamento não envolve a vontade), ver esse Hamilton, o pretinho Hamilton, campeão do mundo de um esporte tão de branco como o que pratica, é realmente fascinante. O mesmo pode ser dito da vitória de Obama.
Os dois, negros, em menos de uma semana, conseguiram avanços tremendos para esta raça tão bonita. Vejo os dois e sinto uma imensa simpatia por eles - mais por Obama. Se me fosse permitido, gostaria de lhe apertar a mão, dar-lhe um abraço e lhe dizer, em português mesmo, Parabéns. Minha mãe me disse que o acha demais. Quando acordei de sobressalto e vim correndo até o computador para ver se a vitória de Obama era concreta, entendi o que ela dizia. Não sei se Tom fez o mesmo, mas é isso o que espero dele.
Minha bisavó, que era ao mesmo tempo racista e preta (isso é uma coisa muito engraçada numa pessoa tão boa como ela, apesar de eu não aprovar ela dizer que não gostava de preto), ela teria amado Obama, tenho certeza. Todo mundo que torceu por Obama (ainda que não tenha torcido para Hamilton) também ficou um pouco negro... não, preto mesmo. Sentiu o gostinho de saber o valor que o preto tem - como diz uma canção gravada há muito pelo também preto Gil.
Desconfio que até o mais inimaginável racista do mundo, daqueles que ainda defendem a bobagem ultrapassada de uma inexistente superioridade ariana, se pegou empolgado com o cometa Obama, de uma luz tão negra e brilhante que ganha viés de salvador - e, lembre-se, o Messias é a luz, a verdade e a vida. Evidentemente que Obama não o é, ainda assim sua eleição representa muita coisa importante para a história do mundo e da luta do povo negro. Isso já foi dito de formas melhores e mais competentes do que acabo de dizer, mas mesmo assim queria eu também dizê-lo.
Tom tão é preto como esse Obama e essa é uma coisa que me emociona muito e me faz querer ser amigo dos dois. Sou feliz de ser, de certa forma, tão preto quanto eles.
P.S.: Por onde você anda, Tom?

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