Chega um tempo em que não damos mais valor para determinadas coisas. O ritmo do dia é tão intenso que esquecemos de coisas que antes eram fundamentais. Quando eu era criança e adolescente a ansiedade de chegar o dia do aniversário era enorme. Quando chegava perto da data eu já me animava e no exato dia sentia uma sensação boa durante todo o tempo. Achava que a qualquer momento iria receber uma ligação, um abraço, uma carta ou um presente.
O Natal também era uma tortura. Esperar o dia da visita do Papai Noel era difícil. Quando realmente chegava, eu e meus primos contávamos os minutos para abrir os presentes. Geralmente eles ganhavam mais coisas que eu, mas mesmo assim adorava os presentes que meus pais davam, sempre escolhidos pela minha mãe. Depois passávamos a noite toda brincando enquanto os adultos enchiam a cara e cantavam até amanhecer.
O início das aulas tinha cheiro de material novo. A hora de ver o ensalamento era muito esperado e saber quais seriam os coleguinhas de classe para o próximo ano rendiam risadas e caretas.
Hoje tudo isso perdeu o valor. Mesmo na faculdade não existia mais essa ânsia de início de aula. O material não era novo, a caneta falhava e o caderno era o que sobrava do ano anterior. O dia 24 de dezembro chega e não dou a mínima. Nem gosto da data pois imagino as pessoas que passam este dia sozinhas. Então quando vejo os enfeites nas ruas sinto um certo incômodo. A neurose que todos têm em comprar presentes também me incomoda.
O dia do meu aniversário passa como qualquer outro. Se antes eu costumava avisar os meus amigos alguns dias antes, hoje nem lembro que a data está chegando. No dia geralmente tenho tanta coisa para fazer que raramente comemoro. Continuo gostando das ligações que recebo (este ano foram 19), das cartas (1) e dos presentes que ganho (2), mas o meu principal pensamento neste dia é que passou mais um ano, me aproximo dos 30, e não cumpri muitas das promessas do último aniversário.
Mas tenho a leve impressão que quando eu chegar nos 70 anos todos estes valores voltarão. Comemorarei meu aniversário com bolo e parabéns e aguardarei a visita do Papai
Noel para ver se alguém lembrou do titio velhinho da família. Uma lacuna de 50 anos para sentir as boas emoções novamente.

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