HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de novembro de 2008
Rafael Urban<br>Equipe da Folha 
No dia em que te conheci você me avisou como se fosse tão importante quanto saber o teu nome: em 15 dias, estaria em Dublin. Apaixonados, conversando na webcam, 30 dias depois, me convidou para passar o Natal contigo.
Quarenta e cinco dias depois, chegou um e-mail curto, de poucas palavras, agradecendo a mensagem de Ano Novo. Em fevereiro, por fim, você me contou que estava apaixonada pelo homem que foi encontrar em Dublin - detalhe que me pareceu tão relevante quanto o seu nome (Ana) e o tempo que ficaria em Curitiba antes de partir para Dublin (15 dias).
Em março, chegou um e-mail um tanto mais longo falando sobre saudades, nas suas palavras ''um sentimento tipicamente brasileiro'', e a vontade de voltar ao Brasil. Fiquei sem entender bulhufas. Eu aqui tentando te esquecer e você brincando com a possibilidade de resgatar memórias?
Em maio, veio a carta em envelope vermelho que falava sobre suas intenções além de uma reclamação, a qual me divertiu pela formalidade, sobre o esquecimento do seu aniversário no dia dois daquele mês. Ali, pela segunda vez, me perguntei se você sofria de algum mal em que confundia os tempos, as idéias e os sentimentos. Resolvi não responder. Por sorte, foi a decisão acertada.
Através das mãos da sua mãe, recebi o convite para o seu casamento. E aí chega o motivo desta carta que escrevo a mão para deixar claro sua autoria artesanal. Não, não aceito o convite e não marcarei presença. Não quero ser a voz causadora de um momento desagradável na hora em que o padre perguntar se alguém tem algo contra o matrimônio em questão. Não, estando presente, não ficaria calado para sempre.
Prefiro, então, ficar calado no meu canto, brincando de te esquecer acompanhado da solidão que a tua falta me faz.


