Preferi esperar um pouco antes de comentar o ''manifesto contra a nudez'' de Pedro Cardoso. Queria ver quem se posicionaria publicamente, e de que lado da questão.
No início do mês, o ator aproveitou o lançamento de um filme para discursar sobre suas ''preocupações com a pornografia'' na indústria audiovisual. Para ele, a nudez, sobretudo a feminina, ''vem sendo usada como recurso para atrair público''. Ele ainda citou as ''sessões privês'' que ''cineastas de primeiro filme'' realizam para os amigos.
Ficou claro que o alvo era o colega Selton Mello, cujo longa de estréia como diretor tem no elenco a atriz Graziella Moretto, namorada de Cardoso. Graziella gravou uma sequência de nudez para o filme, excluída da montagem final. Ainda assim, o ator afirma: ''Se antes era apenas por responsabilidade profissional que eu me opunha à pornografia, agora é também por amor''. Como era de se esperar, o discurso dividiu opiniões no meio cultural, na imprensa e nos blogs.
Polêmica é sempre bem-vinda, principalmente entre uma classe artística tão corporativista como a brasileira. Além disso, não há nada mais chato do que o patrulhamento - liberal ou conservador. Mas que os argumentos de Cardoso foram patéticos e infundados, isso foram.
Para começo de conversa, há tempos o cinema nacional deixou de apelar para a nudez com o objetivo de vender ingressos (os sucessos de bilheteria dos últimos anos passam longe do erotismo). Isso é coisa da pornochanchada, do século passado. E tem mais. Já que o assunto é a indústria audiovisual como um todo, por que Cardoso não critica diretamente a Rede Globo, notória pela erotização das novelas? Se queria proteger a namorada, por que não tirou satisfações com Selton Mello?
Faltou coragem para dar nomes aos bois e arriscar a própria cabeça. Como disse a veterana atriz Helena Ignez, foi uma ''defesa quase cômica das mulheres''. Completo: como se elas não soubessem se defender.
O pior de tudo, no entanto, é ver comentaristas oportunistas embarcando nessa onda apenas para disseminar idéias retrógradas. Na internet e no papel, não faltaram soldados prontos para defender o ator, mas pela via do moralismo e da censura. Sem querer, Pedro Cardoso deu munição para gente que, ao contrário dele, ainda vive na Idade Média. O tiro saiu pela culatra.

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