O astronauta sonha coisas concretas. Não sonha voar. Não sonha em conhecer o espaço. Não sonha em confirmar se a Terra é mesmo azul. O astronauta sabe das coisas e só sonha certezas.
O sonho do astronauta é um bife numa mesa, um pedaço de carne assado que não saia flutuando. O sonho do astronauta é uma mesa sobre o chão, uma cadeira sobre o chão, um prato sobre a mesa sobre o chão, seu corpo sobre a cadeira sobre o chão, um bife sobre o prato sobre a mesa sobre o chão, talheres em suas mãos presas a seus braços presos a seu corpo sobre a cadeira sobre o chão. Um bife sobre o prato que permaneça sobre o prato sobre a mesa sobre o chão. Um estômago que não flutue.
O astronauta quer é sentir o cheiro do ar. No espaço, o cheiro do ar é metálico. Mas não há ar. Ele não se lembra o que é opressão. Nem pressão atmosférica.
O astronauta não vive no mundo da lua. Ele sabe de porcas, chaves de fenda, alimentos líquidos em tubos de ensaio. Tudo girando no ar. O que ele sabe é esticar o braço para pegar um parafuso que passa na frente do seu nariz. E seu braço flutua junto. O astronauta não tem nariz, na verdade. Tem um vidrinho na frente da cara. Ele não precisa respirar, acho.
O astronauta, todo dia, sonha em mandar tudo para os ares. Tem a cabeça no mundo da lua e conheçe apenas um tipo de solidão.
Só sonha o astronauta com o que lhe falta: tempestades, furacões, frio. Sabe que o espaço é inimigo, absoluto, silencioso. Ou se vive, ou se está morto. É hostil. Mas a vida do astronauta é leve, sem intensidade. Lá, o tempo passa ao contrário.
Se o mundo acabar, o astronauta é o último a morrer. Se alguém morrer no mundo, o astronauta é o último a saber.
O astronauta sabe por que estudou nos livros, mas não se lembra muito bem o que é gravidade. Ele não se recorda o que é ter peso, o que é ser gordo ou o que é ser magro. Ele só sabe qual é a sensação de ir.
O astronauta, em qualquer situação, é o único ser que não se cansa de repetir, referindo-se a qualquer coisa: não há nada mais belo.

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