HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de outubro de 2008
Marcela Rocha Mendes<br>Equipe da Folha 
Sandro era um funcionário modelo. Chegava mais cedo, saía mais tarde. Fazia tudo o que pediam sem pestanejar. Mesmo quando se sentia humilhado de graça, abaixava a cabeça e continuava seus afazeres. Às vezes tinha a chance de colocar suas indignações quando era perguntado, mas os pensamentos vinham tão confusos que ele gaguejava e voltava a se calar.
Pisou na bola uma vez ou duas, mas nunca o deixavam esquecer o que tinha acontecido. Enquanto as besteiras dos outros eram particulares, as dele ficavam sempre expostas para todos verem. Era cobrado para ter mais liderança, mas quando tinha uma idéia era reprimido logo em seguida. Prometiam a promoção, mas contratavam outro mais jovem para o cargo almejado.
Tinha 20 anos de empresa, mais ainda era chamado de office-boy, mesmo já sendo supervisor administrativo há 5. Convivia com colegas e clientes com seus carros de luxos e viagens ao exterior, enquanto penava para pegar dois ônibus ao dia e pagar as prestações atrasadas do apartamento de 50m2 para ele, a esposa e os quatro filhos.
Gostava de conversar com os colegas do departamento vizinho porque as cinco mulheres com quem dividia a sala o deixavam maluco. Ouvia 8 horas de conversas sobre os atores da novela e as roupas da estação e achava difícil se concentrar para fechar as metas do dia. Só pediu uma coisa aos patrões, a chance de voltar a estudar, mas foi recusada.
Mas parecia que a sorte de Sandro estava mudando. Era pouco, mas já representava uma luz no fim do túnel. Ele foi honradamente convidado para um jantar requintado oferecido pela empresa e que apenas os funcionários mais prestigiados podiam participar. Naquele dia, se arrumou mais. Usou o melhor sapato e a melhor roupa. Avisou a esposa que chegaria tarde. Até se perfumou.
Saiu tarde de sua sala, como de costume. Chegou ao salão se sentindo um rei. Eis que chega um dos diretores da empresa e lhe pergunta: "trouxe o livro ata? Preciso que você pegue a assinatura de todos os membros da cúpula durante o jantar". Ele responde (ou tenta): "N-n-não. Não sab-bia que precis...". Mais uma vez se sentido "colocado no seu lugar", ele pegou sua mochila, entrou no ônibus e foi pra casa. De barriga vazia.


