Sempre imagino, deitado em minha cama, acontecimentos que mereçam o adjetivo. Dois pensamentos me são recorrentes, como sonhos que sempre acontecem e que assustam quando retornam, inesperados e imperceptíveis durante o sono calmo, em uma noite qualquer. Ao acordar, acompanhando os primeiros suspiros matinais, vem a constatação entediada: De novo.
A partir de agora, contudo, tudo ganha um ritmo novo, não de sonho, mas de montagem cinematográfica, com cortes secos e narração rápida; a comparação pode ser feita também com um resumo de um romance inexistente. O primeiro dos dois pensamentos refere-se a um amigo e a um telefonema.
Em dia de festa, o amigo anota o telefone de um conhecido. Devido a embriaguez, escreve Fabar no lugar de Fábio. Muito tempo se passa, o esquecimento age, mas o telefone permanece gravado no mesmo lugar. Esse amigo, certo dia, precisa ligar para Fábio. Ri-se de ter anotado o nome errado. Liga. Na linha que os prende, uma voz masculina atende. Quem?, indaga o amigo, esperando que Fábio se revele. Do outro lado, a voz diz: É Fabar. Assombrado, meu amigo desliga o telefone.
O segundo pensamento diz respeito a mim. Quase todos os dias (exceto os tortos) chego em casa no mesmo horário. Entro com o mesmo ar de cansaço - sempre o mesmo tédio se anuncia. Dia desses, porém, entrei e havia um homem na minha mesa, usando meu computador. Tento, em vão, reconhecer-lhe a cara. Passo por ele sem cumprimentar. Quase piso em uma criança que brinca no chão. Brinca, sentada, com cubos. Adentro a cozinha para tomar água, como sempre faço, e peço licença para uma mulher que faz algo no fogão. Engulo a água com certeza de que não deviam estar ali. Pego um biscoito e começo a roer.
Pergunto ao homem se posso usar o computador. Ele me pede que espere um pouco, pois está respondendo alguns e-mails. Vou para meu quarto e a cama está arrumada como quase nunca está. Eles mexeram aqui, penso sem nenhum espanto. Deito-me no mesmo momento em que a criança começa a chorar na sala.

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