Dias desses, produzi uma matéria para esta FOLHA sobre uma cartilha de combate ao fumo em empresas. Lançada por uma ONG de São Paulo, é a tradução de um documento em inglês que ensina, passo a passo, como tornar o ambiente de trabalho ''livre de tabaco''.
São 30 etapas a serem desenvolvidas em um prazo de seis meses. Tudo descrito minuciosamente, com aquele linguajar típico do meio corporativo - que substitui ''funcionário'' por ''colaborador'', ''troca de favores'' por ''networking'', ''demissão em massa'' por ''reestruturação''.
Até aí, tudo bem. Já estamos carecas de saber que o cigarro faz mal. E quando esquecemos, fotos de membros amputados e fetos deformados reavivam nossa memória. Além disso, uma pesquisa recente apontou que mesmo os fumantes defendem a proibição do consumo em lugares públicos. É uma questão de saúde, ninguém discute.
Mas confesso que um trecho da minha própria reportagem me incomodou. Lá pelas tantas, um médico afirma que as empresas, em seus processos de recrutamento, têm levado em consideração o hábito de fumar. ''Entre dois candidatos em condições iguais, o não-fumante leva vantagem hoje em dia'', diz o doutor.
É mais uma constatação de que a empregabilidade deixou de depender apenas das chamadas ''competências essenciais'' (pró-atividade, pontualidade, comprometimento, etc.). Até o que você ingere é avaliado pelas corporações.
Não será surpresa se, num futuro próximo, surgirem cartilhas voltadas para quem rói as unhas, deixa a tampa do vaso levantada ou não come salada. Está cada vez mais difícil ser um funcionário padrão.

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