''O que me espera do outro lado desta vida não deve ser nada bom''. Com essa frase o encarregado de manter o biotério de uma grande universidade desabafou, para uma deprimida aluna de biologia, a culpa que sentia ao ver o sofrimento dos animais e não fazer nada para ajudar.
Mais: ele foi o primeiro a admitir - para surpresa dela, que o achava tão indiferente - não só não ajudar, como ser responsável por manter os bichos confinados em cubículos, prendê-los na hora dos experimentos e vê-los agonizar até a morte sem conforto nenhum, alguns costurados como ''bonecos de pano''.
Não, ele não gostava do trabalho. Sim, ele também achava muito cruel. Mas tinha família para sustentar e foi o emprego que conseguiu, com carteira assinada, direito a férias...
A aluna, que já estava se penitenciando por ter sacrificado algumas dúzias de camundongos brancos para testar o efeito de alguma substância de nome estranho, ficou com os ombros no chão. Sentiu pena do homens, dos ratos, dos demais bichos do biotério e de si própria, por ter sido enredada nessa teia de sacrifícios... Tudo porque tinha dificuldade em dizer não, pensou ela.
O que dá o direito ao homem de torturar animais, mesmo com o argumento de pesquisar soluções para a saúde de outros seres? Cada um tem sua opinião sobre isso, pensou a estudante. Ela não sabe se os fins justificam os meios, ou se os meios justificam os fins. Não encontrou alívio moral nas divagações filosóficas que fez sozinha, sentada num café, depois do diálogo com o zelador do biotério.
Dias depois, recebeu por e-mail um pedido para assinar uma lista contra experiências usando animais na indústria cosmética. Em anexo, a foto de um coelhinho com os olhos vazados por algum produto corrosivo. Assinou. O peso ficou menor sobre os ombros, mas nem por isso dormiu melhor aquela noite. Afinal, alguns algozes guardam a capacidade de serem penitenciados pela dor do sacrifício alheio.

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