Continuo meu estudo sobre a morfologia animal. Leio coisas interessantes em relação ao tema no livro de Calvino sobre clássicos - mais precisamente no capítulo sobre Plínio e sua ''História natural''. Em uma das passagens, Calvino lembra os seres d'além mar que habitam nas páginas da ''História natural'':
''Que os territórios desconhecidos na fronteira da Terra alojem seres na fronteira do humano não devem causar espanto: os arimaspos com um olho só no meio da testa (...); os andróginos de Nasamona, que alternam os sexos quando se acasalam; os tibios, que num olho têm duas pupilas e no outro, a figura de um cavalo. Mas o grande Barnum apresenta seus números mais espetaculares na Índia, onde pode ser encontrada uma população de caçadores com cabeça de cachorro; (...) nômades com pernas em forma de serpente; e os astomos sem boca, que vivem cheirando perfumes''.
Lembro-me pouco das origens do meu interesse repentino por criaturas maravilhosas, mitológicas, monstruosas, que nada têm a ver com o mundo que vivemos hoje. Recordo que quando criança, juntei moedas para comprar um livro sobre monstros: puxo por um fio seres como o grifo (cabeça e asas de águia e corpo e patas de leão) e a esfinge; além dos já citados, em outra ocasião, minotauro e o centauro.
A literatura e a religião indiana também registram a presença de seres maravilhosos. De primeira, recordo-me de Ganesh, um deus gordo com corpo de homem e cabeça de elefante. Se não me engano era um ser bonachão e extremamente fascinante. O tão amado Borges também escreveu seu bestiário, pequeno livro dos seres imaginários, onde desfilam monstros que, desconfio, sejam muito melhores que nós.
Sim, acho que é isso. O fascínio por seres imaginários vem dessa descoberta: que seres monstruosos, híbridos, estéreis, furiosos, amorfos, impensáveis, inúmeráveis, são mais valorosos que nós, homens humanos. Daí a vontade de ter uma grande barriga e uma cabeça de elefante rodeada de colares, ser doce e receber biscoitos e leite com açúcar de fiéis. Mas sei que o Deus Único reserva a nós, você e eu, tristes destinos, muito mais cruéis que o fato de se ser uma besta - então não me iludo.
A constatação não deve causar espanto.

mockup