Da primeira vez, em épocas revoltas, eu quis ser um mú ou muar, nomes dados ao macho da mula, animal resultante do cruzamento entre um jumento e uma égua. A mula e o muar são chamados de bestas, pois são resultado do acasalmento de espécies diferentes e, portanto, nascem estéreis. Desde 1527, foram registrados apenas 60 casos de mulas que deram à luz. Diz-se que o muar é o ponto final biológico da existência dos equídeos.
A pouca mitologia fez com que eu desistisse de ser um muar. O animal me parecia carente de ser: ele existia e não era um ser imaginário. Criatura selvagem, decidi me tornar o Minotauro, ser resultante do amor de Pasífae, esposa do rei Minos, filho bastardo de Asterion com Europa, por um touro branco emergido do mar. Louca por desejo de Poseidon, Pasífae entregou seu corpo para ser coberto pelo touro de incomparável beleza. Ela se utilizou de uma estrutura oca que imitava uma vaca para chamar a atenção do touro. A vaca oca foi construída por Dédalo, engenhoso homem que conceberá também o labirinto onde o Minotauro ficará aprisionado. Mesmo devorador de damas atenienses, o Minotauro não teve descendentes, pois foi morto antes por Teseu. Ainda assim, ganhou o nome do avô, Asterion, homem que não desejava filhos com Europa, a amante dos deuses.
Minha visão mudou quando descobri que em algumas versões, o Minotauro é representado com o torso de touro e não os habituais corpo de homem e cabeça de touro. Nesta mitologia, Asterion seria uma versão taurina do Centauro, também seres selvagens, com excessão de Quíron, nobre e inteligente. Queria sê-lo. Filho de uma ninfa, o Centauro foi abandonado quando a mãe descobriu a criatura horrenda que pariu. Adotado por Apolo, Quíron aprendeu artes. Ferido por uma flecha venenosa que lhe produziu um ferida incurável na parte animal, Quíron sofreu intensamente, pois era imortal. Só pôde finalmente repousar quando assumiu o lugar de Prometeu e foi enviado ao inferno.
Hoje, eu queria ser simplesmente, estranhamente, um híbrido de homem e tubarão. Na mitoligia moderna, este ser maravilhoso seria chamado talvez de Tubarédis. Entre suas qualidades estão as capacidades protéicas (exceto a cabeça de tubarão), a Náusea e o fato devorar de si mesmo e permanecer intacto. Como todos os híbridos, o ser de Tubarédis é estéril, como esta terra.

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