HISTÓRIAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Tenho um apelo a fazer às mulheres com mais de 30 anos (ok, 25 já está valendo): não falem como crianças. Evitem diminutivos. Fujam dos diálogos tatibitates. Só lancem mão dessa leviana e discutível arma de sedução quando estiverem sozinhas com bichinhos de pelúcia inanimados. Pois nem mesmo os pobres animais de estimação devem ser expostos a palavrinhas no diminutivo cantadas com sotaquezinho infantil. Ah, sim, as próprias crianças e nem bebezinhos fofinhos devem ser torturados com esse tipo de linguagem.
Outro dia, em um parque, escutei uma jovem senhora falando alto, com a voz um pouco estridente: ''Bulucudinho da mamami, quer vevete? Quer vevete?'' E o tom subia. ''Quer siim, quelidinho. Toma vevete, toma''. Achando que se tratava de uma criança ou de um pobre cachorrinho superalimentado com sorvete, não resisti à curiosidade e me virei para ver o interlocutor. Era o namorado da moça.
Casais costumam ter uma linguagem própria, eu sei, mas não dá para dispensar o bom senso. Crianças também não precisam ser submetidas a vocabulários infames em nome de uma pretensa compreensão. Não submetam os pequenos com apelidos ou repetindo o que as crianças, por etapas, ainda não conseguem pronunciar. Em nome da língua portuguesa, deixem os neologismos para quem entende do assunto. Na falta de um doce vocabulário apropriado, lancem mão do gesto, das expressões, dos monossíbalos, das palavras subjetivas. Pois qualquer enigma soa melhor que palavreados mimosos quando a comunicação se faz necessária.


