HISTÓRIAS - Solução
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
A solução é fogo.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges diz que as chamas das ruínas circulares não queimam as carnes do seres sonhados.
Solução é fogo: fogo do amor, fogo do inferno.
Estamos sós, a bem amada e eu. Comamos. Filés, molhos, pepinos em conserva. Queijos: branco, brie, gorgonzola. Comamos até nossos estômagos não aguentarem mais, até explodirmos para comer mais. É o pecado
da gula.
A bem amada. Estamos sós. Ela sai do banho e, só de toalha, espero-a com latas de cerveja, tequila, uísque (duas pedras de gelo e coca-cola); vinho não. Embebedo-a e tomo seu corpo para mim. Sorvo tudo dela. Abandono-a ali mesmo, desfalecida, corpo aberto e nu, sujeita as intempéries do tempo e do mal. É minha forma de
protegê-la.
Coloco um disco. No selo central do vinil, o nome "João" grafado em letras garrafais, cerifadas, gira, gira, gira, gira... gira até enroscar. A bem amada gira e se enrosca em meu pescoço. Afasto-a. Pego o violão e toco para ela "Saudade da Bahia".
Estamos sós. A bem amada e eu. Em algum momento indefinido nossos corpos ardem de uma febre sem precedentes. Suemos. Suemos pelos poros, pelos olhos, pelos cílios, até que entremos em delírios antes nunca vistos. É isto que quero de você, bem amada...
Para alegrá-la, mandei instalar o Corpo de Bombeiros ao lado de casa. As sirenes passam por nossa janela tocando uma valsa. Como são altos os prédios, as estrelas desaparecem no cosmo e a bem amada ama tanto as estrelas...! De modo, então, que construí a mais longa avenida para que ela, ao sair na janela, sempre possa ver luzinhas piscando em noites de chuva. O asfalto molhado refelte o vermelho do farol de freio feito os vagalumes de Terra Rica. - Ah, se os tivesse visto, bem amada, você ia adorar...
Para que ela durma protegida da maldade do mundo, dos raios ultravioletas, de balas de pipoca, beijo todas as noites seus olhos; faço vigília a seu lado; seguro seus seios quando ela treme de medo; conto mentiras, dizendo que sou o homem mais forte, o mais belo, o mais valoroso, o melhor poeta, e que somente minhas mãos e meus versos bastam para que nada na vida a atinja. Com um sorriso satisfeito ela acredita e dorme como uma menina grande. Só então posso descansar um pouco, pronto para despertá-la, enlaçando-a com minhas pernas pesadas. Acordo-a aos poucos e ela se ilude, pensando que despertou sozinha.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges fala do fogo das ruínas circulares. De certo modo, sou um pouco ruína e ela é o ser sonhado. A bem amada, pois bem, consome-se do meu fogo, arde de dor e delícia, transforma-se em cinzas: ela, cinza, eu, ruína. Na mágica da ficção, porém, renascemos (e renasçamos!) refeitos todos os dias, numa manhã como esta.


