Curitiba - O ano de 1968 foi marcado por manifestações históricas em todo o mundo. Milhares de pessoas tomaram as ruas do Norte ao Sul do globo. Os jovens paranaenses daquela época, não ficaram de fora. Foi naquele ano que eles impediram que o ensino pago se instalasse na mais antiga instituição de ensino superior do país, a Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Os jovens se uniram para protestar contra os acordos entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for Internacional Development (USAID), que tinham como objetivo declarado o aperfeiçoamento do modelo educacional brasileiro. Para os universitários de todo o país, no entanto, os acordos eram um caso de ingerência internacional nos assuntos educacionais brasileiros, o que, para eles, era inaceitável.
Os acordos foram o estopim para manifestações públicas contra a ditadura militar que havia se instalado no Brasil em 1964. Em Curitiba, o foco de luta dos estudantes era a realização do vestibular para o curso noturno de Engenharia, primeiro curso pago da UFPR e a instituição do pagamento de anuidades. A inovação era herança do MEC-USAID e enfurecia o movimento que defendia a universidade pública e gratuita.
A briga entre movimento estudantil e a universidade começaria a esquentar no Dia das Mães. ''Lembro bem da data porque quem não foi preso saiu da invasão para ir almoçar com a mãe'', lembra Luiz Manfredini, na época uma liderança do Movimento Estudantil Livre (MEL). Para impedir a realização do vestibular, os estudantes invadiram o Centro Politécnico, ocuparam as salas e tornaram inviável a aplicação das provas. O teste foi adiado. Muitos vestibulandos, animados pelas lideranças estudantis, aderiram ao movimento.
Dias depois, novamente os estudantes enfrentaram a polícia (leia nesta página). Quinhentos jovens se envolveram numa batalha campal com mais de mil policiais nas ruas próximas ao Campus Politécnico. Em menor número, muitos ficaram feridos ou foram presos. Decidiram, então, invadir o prédio da Reitoria, na rua XV de novembro. ''Viemos de todas as partes e tomamos o prédio de repente'', lembra Clair Flora Martins, aluna do curso de Direito da Federal. O movimento foi planejado em uma reunião secreta no Centro Acadêmico de Medicina. ''Quem participou da reunião, não pôde deixar a sala, para que a informação não vazasse e a polícia frustrasse nossos planos'', conta Manfredini.
Estudantes universitários e secundaristas estavam convocados a se reunir na Praça Santos Andrade a partir das 7 horas. Oficialmente, os manifestantes seguiriam em passeata até o Politécnico. ''Mas depois do confronto violento com a polícia nos últimos dias, as lideranças do movimento decidiram que aquele dia teria que ser diferente'', relata Manfredini. O plano, delineado em segredo, era levar os estudantes para a reitoria e tomar conta do prédio.
''Durante a noite, o governador Paulo Pimentel enviou um emissário até os estudantes. Queria oferecer um avião para que pudessemos ir à Brasília, negociar diretamente com o ministro da Educação'', revela Manfredini. ''Tinha pavor que houvesse um confronto no Paraná, que algum estudante fosse morto'', explica o ex-governador Paulo Pimentel.
O grupo não estava disposto a conversa. Queria agir. No início da manhã, três mil jovens compareceram à manifestação. ''Seguimos em dois blocos, uma pela XV de Novembro e outro pela Amintas de Barros e fechamos as ruas em torno do prédio'', relata. Tomaram o prédio de assalto. Eram 8h. Barras de ferro foram usadas para arrancar as pedras de paralelepípedo das ruas e construir barricadas. Nas mãos e nos bolsos, muitos estavam armados com estilingues, pedras e bolas de gude, que seriam usadas para derrubar os cavalos.
A cavalaria da PM também enfrentaria uma artilharia de rojões, destinada a assustar os animais e derrubar seus cavaleiros. Carros que circulavam pela região foram tomados pelos estudantes. ''Colocamos panos nos tanques de gasolina. A idéia era explodi-los caso houvesse um confronto com a polícia'', diz. As idéias incendiárias dos manifestantes não pararam por aí. Líder dos secundaristas, Manfredini coordenou a produção de coquetéis molotov. As bombas seriam jogadas nos carros-pipa dos bombeiros, que eram utilizados na repressão a manifestações.
Dentro do prédio, milhares de estudantes aguardavam com calma o desfecho daquele dia histórico. O clima, diz Manfredini, era de companheirismo e festa. ''Alguns jogavam cartas, outros namoravam'', conta. Clair lembra bem da principal atitude tomada pelos estudantes naquele dia histórico. ''Derrubamos o busto do reitor''. A estátua de Flávio Suplicy de Lacerda perdeu o nariz e uma orelha.

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