HISTÓRIA VIVA - 1968: um ano que não envelhece
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sábado, 10 de maio de 2008
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
A intervenção militar norte-americana no Iraque - que em cinco anos já teria deixado mais mortes que em toda a Guerra do Vietnã, segundo observatórios internacionais - jamais provocou uma mobilização popular de vulto no Ocidente. As legiões de subempregados e miseráveis legados pelo capitalismo deste início de século provocam, quando muito, manifestações calculadas às portas de eventos como o Fórum de Davos. No Brasil, escândalos de corrupção se acumulam ao longo da democracia recente - mas se o termômetro fosse a realização de protestos, a constatação seria de que o País vive às mil maravilhas desde o impeachement de Collor.
A passividade das últimas décadas ajuda a explicar porque, mais uma vez, o mundo revive a situação inusitada de celebrar o aniversário não de um evento, mas de um ano em si: 1968. Ciclos de debates, passeatas, lançamentos de livros e edições comemorativas de revistas estão programadas em vários países para reverenciar - e mais uma vez tentar explicar - o ano em que a guerra, os direitos civis, a luta pela democracia e a liberdade de expressão levaram milhões de pessoas às ruas em explosões simultâneas de indignação por todo o globo, algo tão distante da realidade atual.
''Os eventos de 1968 não ficaram circunscritos a um lugar, por isso a data é um marco. Não sei se podemos falar em outro ano que tenha sido tão emblemático'', assinala Maria de Fátima da Cunha, doutora em História Social e professora de metodologia do Ensino de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Resumir o que foi 1968 é quase um crime, mas alguns episódios ajudam a entender a mitologia criada em torno da efeméride: em Paris, talvez o local mais emblemático, a ocupação de universidades por estudantes que contestavam o autoritarismo acadêmico precedeu a marcha de mais de 1 milhão de franceses pelas ruas da capital, num inesquecível mês de maio.
Com a adesão de operários e a organização de greves em vários setores, o protesto acabou mirando o regime do presidente Charles De Gaulle, que respondeu com violenta repressão policial. Embora não tenha deixado quase nenhuma baixa, a imagem da romântica Paris transformada em praça de guerra, com carros incendiados por toda a parte, entrou para a história.
Nos Estados Unidos, milhares protestaram contra a Guerra do Vietnã em universidades e praças. O assassinato do maior defensor dos direitos dos negros, Martin Luther King, gerou uma onda de manifestações incendiárias que se estendeu por mais de 120 cidades norte-americanas.
A Tchecoslováquia teve sua ''Primavera de Praga'', com a ascenção do secretário-geral Alexander Lubcek e sua plataforma de garantia de direitos civis e liberdade de expressão dentro do Partido Comunista. Também foi o ano dos soutiens queimados em praça pública, da bandeira a favor da pílula anticoncepcional, da estética e comportamento hippies sintetizados no musical da Broadway ''Hair'', da apologia às drogas como mais uma demonstração de inconformismo.
O Brasil não ficou de fora, puxado principalmente pelo movimento estudantil. Mas, como em outros países latinoamericanos, deu ao movimento contornos mais politizados, provocados pela ditadura. ''Temos que separar o 68 no Brasil do que ocorreu lá fora. Aqui, foi o auge da luta contra o movimento militar. Nos EUA e Europa, é um movimento de contracultura, uma revisão de uma série de questões como a família, a liberdade sexual, a hierarquia dentro das universidades e a luta pelos direitos das minorias - negros, mulheres, homossexuais'', pontua Cunha.
''O maio de 68 (francês) influenciou os estudantes brasileiros no sentido de nos perguntarmos: se eles estão fazendo isso, por que aqui não pode? Tudo bem que eles não venceram (o regime gaullista), mas mudaram toda a visão social da época'', analisa Alcides Carvalho, 63, militante estudantil à época (leia mais nessa página) e atualmente professor do curso de Comunicação Social da Unopar.
Quarenta anos depois, uma pergunta continua sendo repetida: teria sido 1968 apenas um lampejo ou algo que realmente mudou a história? Para a professora da UEL, ainda que os manifestantes não tenham se saído vitoriosos em seus pleitos, conseguiram estalebecer um paradigma de revolução - mostrar que era possível pensar outro tipo de sociedade. É de se imaginar que, talvez graças ao ''ano que abalou o mundo'', minorias organizadas em movimentos como o GLS podem arrastar hoje milhões de cidadãos às ruas em clima de festa, e não de protesto.
''Tivemos momentos posteriores importantes, como o próprio festival de Woodstock, já no ano seguinte. No Brasil, houve o movimento das Diretas Já, na década de 1980. Na questão dos direitos civis, fomos herdeiros tardios daquela contestação. As ONGs da década de 90, defendendo certos segmentos sem estar ligados ao Estado, são um reflexo daquilo'', avalia a docente.
Será que uma insurreição mundial semelhante à de 1968 teria chances de acontecer nos dias de hoje? Para Cunha, é preciso ter em mente que essas quatro décadas separam momentos muito distintos e que a sociedade mudou. O que não quer dizer que estejamos condenados à passividade.
''As lutas se fragmentaram, as causas hoje são mais individualizadas: temos os negros lutando pelos negros, os trabalhadores pelos trabalhadores. Talvez o que chegue hoje mais próximo de uma causa revolucionária seja a questão do meio ambiente. Já vemos boicotes coletivos a marcas que poluem e atos organizados como os do Greenpeace. Quem sabe o que virá no futuro?'', lança.


