Conhecida por ser o marco zero da vila que mais tarde viria a tornar-se a cidade de Curitiba, a Praça Tiradentes guarda muito mais que o monumento representativo dessa passagem histórica. A descoberta foi feita durante as escavações para a obra de revitalização da praça, acompanhadas por uma equipe de arqueólogos da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
''A praça ainda guarda evidências relacionadas ao início da ocupação e possivelmente a períodos anteriores a ela'', revela o pesquisador Igor Chmyz, da UFPR, coordenador da equipe de arqueólogos. A mais importante dessas evidências, encontrada na semana passada, é o trecho de uma calçada de pedras irregulares, que aponta na direção do Alto São Francisco. De acordo com Chmyz, fragmentos de cerâmica e louça encontrados no local indicam que a calçada já estava presente ali no século XIX, mas há indícios de que ela tenha sido construída antes. ''As cidades mineiras têm muito esse tipo de calçamento que data do século XVIII, mas a técnica construtiva é mais antiga que isso'', justifica o pesquisador.
Pela primeira vez uma estrutura arqueológica será integrada a um projeto de revitalização em Curitiba, segundo Chmyz. ''Conseguiu-se conscientizar a prefeitura para a manutenção dessa peça. É primeira vez que isso acontece, houve uma mudança de postura dos executivos. Já descobrimos outros calçamentos e tivemos que cobrir de novo para evitar depredação'', conta.
Na Praça Tirandentes, parte da calçada escondida foi destruída pela máquinas antes da intervenção dos pesquisadores. ''Esse trabalho é um dos mais difíceis que um arqueólogo pode enfrentar porque é ligado a um empreendimento. Se nós não estivéssemos aqui na terça-feira isso aqui estaria destruído. Sambamos aqui o Carnaval'', afirma Chmyz. As escavações no local continuam esta semana.
Segundo o pesquisador, a descoberta indica que a praça mantém, pelo menos em parte, o traçado original. ''Fala-se tanto que a Praça Tiradentes recebeu alterações que pensava-se que o traçado havia mudado. Foi um achado inusitado. Ninguém esperava encontrar isso. Esperávamos encontrar apenas fragmentos de cerâmica. Não dá para dar muito crédito ao que se fala. Arqueólogo é que nem São Tomé'', afirma. Para Chmyz, a arqueologia poderá esclarecer o que a documentação histórica não registra. ''Essa origem de Curitiba é muito nebulosa na história'', observa.
Com a conclusão das obras, a população poderá observar a calçada, que será exposta com a proteção de um vidro especial e acompanhada de um texto explicativo. ''Muita gente vai se transportar para o passado. Será uma forma de educação popular para que os visitantes valorizem o passado e entendam que antes deles passarem por aqui outros passaram'', avalia o arqueólogo.

mockup