História preservada
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terça-feira, 17 de abril de 2007
Maigue Gueths<br>Equipe da Folha 
Um dia, o advogado João Casillo comprou um quadro do pintor Paul Garfunkel, pintado em 1946, retratando a Casa dos Arcos, edificação histórica de Curitiba, localizada na Praça Eufrásio Correia, no centro da cidade. Para ele, a aquisição do quadro foi quase uma premonição. Anos mais tarde, ele acabou comprando o próprio imóvel, que foi totalmente restaurado e hoje abriga seu escritório de advocacia.
Premonição ou não, a verdade é que a compra do quadro já mostrava uma paixão antiga do casal Casillo, João e Regina, que sempre foram apaixonados por arte e história. A paixão pelas casas antigas, aliás, levou-os a comprar não apenas um, mas dois imóveis que fazem parte da história da Capital: a Casa dos Arcos e o Solar do Rosário. Localizado no centro histórico de Curitiba, esse imóvel também foi restaurado e hoje abriga um centro de arte e cultura, com galeria de arte, antiquário, cursos de pintura e livraria, entre outros serviços, dirigido por Regina.
O casal realizou um sonho. A população de Curitiba recebeu um presente: a garantia de que as duas casas e suas histórias vão continuar a fazer parte da vida de Curitiba.
Mas no papel, pelo menos, essa garantia já existia. O Solar do Rosário faz parte de uma lista de cerca de 600 imóveis classificados pelo município como Unidades de Interesse de Preservação (Uip). Como o nome diz, seja por sua importância histórica, arquitetônica ou cultural, o município tem interesse na preservação desses imóveis.
Para incentivar os proprietários, pode conceder benefícios fiscais, como a redução de IPTU para quem mantém imóvel em boas condições ou incentivo construtivo, por meio da Lei do Solo Criado. Pela lei, em troca da preservação do patrimônio, o proprietário recebe autorização para construção acima dos limites da legislação em vigor, no próprio terreno da unidade histórica ou em outro local. O proprietário pode, ainda, comercializar esse seu direito de construir.
A Casa dos Arcos tem proteção ainda mais especial. Ela é um dos 165 bens em todo Estado tombados pelo Patrimônio Cultural do Paraná. Desses, 58 estão em Curitiba. Sobre um bem tombado não há apenas uma indicação, mas sim a obrigação legal de ser preservado. O ato de tombamento proíbe que o bem seja alterado ou descaracterizado, tendo que manter as características na data do tombamento. Assim, um imóvel não pode ser reformado, mas apenas restaurado. Um bem natural tombado também não pode ser mudado, só pode passar por manejo com devida autorização.
O que a maioria das pessoas desconhece é que não são apenas os imóveis que são passíveis de tombamento. A iniciativa pode ser usada também para a preservação de bens culturais e ambientais. A Serra do Mar, Ilha do Mel e até mesmo algumas árvores, como o Angico Branco, que está na Praça da França, no bairro Seminário e uma Tipuana, que está plantada no pátio do Colégio Sion, no Batel, ambos em Curitiba, foram tombadas pelo Patrimônio Cultural do Estado como bens naturais. O painel de azulejos de Arthur Nísio, na Maternidade Nossa Senhora de Fátima, por outro lado, foi tombado por sua importância artística.
Entre os bens tombados, alguns chamam a atenção. Em Curitiba, por exemplo, estão tombados a paisagem urbana da Rua XV De Novembro, e o conjunto urbano da Rua Comendador Araújo. A arquiteta Luciana Mattoso, do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc) explica: Alguns locais têm importância pelo conjunto. Às vezes uma casa não tem uma arquitetura tão significativa, mas se vocâ mexer nela você afeta todo o conjunto, que tem uma história.
No site da Coordenadoria de Patrimônio, onde é possível ver detalhes sobre o tombamento de cada imóvel, também é possível entender esse conceito. A Rua Comendador Araújo, por exemplo, foi tombada pelo seu conjunto. Ela serviu de caminho a viajantes e abriga vários casarões contruídos no fim do século XIX pelos barões do ciclo do café.


