HISTÓRIA PRESERVADA - Fotógrafo sueco se aventura pelo Brasil
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sábado, 16 de setembro de 2006
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
'Cenas da revolta federalista, em 1893, das revoluções de 1924, 1930, 1932, e da Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, foram imortalizadas pelo fotógrafo Claro Jansson, um dos precursores do fotojornalismo brasileiro'
Gênero feminino, vaidosa, a história permite que apenas alguns a observem em sua intimidade e a de seus protagonistas. O fotógrafo viajante, o sueco Claro Gustavo Jansson (1877-1954), que imigrou para o Brasil em 1891, foi um desses escolhidos, para quem quase todos os acontecimentos mais importantes do final do século 19 e começo do século 20 não esconderam nada.
Fotógrafo das revoluções brasileiras, o artista chegou a ser comparado, por críticos da arte, a August Sander (1876-1964), o pai da fotografia moderna. Ao contrário do alemão, que viveu numa época em que Berlim era o centro europeu da criação artística, sob a influência do movimento Bauhaus, Jansson afundou os pés nos cafundós de São Paulo e do Paraná.
Talvez, por isso, a arte contemporânea e a história - tanto da própria fotografia e do Brasil - ainda não mergulharam em seu acervo, composto por cerca de 3.800 fotos em chapas de vidro.
''Temos a intenção de criar o Museu Claro Jansson, mas ainda não tivemos condições. Entre os equipamentos que guardo está a máquina esteroscópica com que fez muitas fotos'', comenta Jandira Jansson, filha adotiva de Gustavo Adolfo Jansson, filho do fotógrafo viajante, que também se dedicou à arte até morrer em 2004.
Além do material fotográfico, a neta adotiva herdou o estúdio na Rua São Pedro, em Itararé, interior de São Paulo. As imagens esteroscópicas iluminam grande parte do universo de Jansson. A técnica foi esquecida, mas era moda antes da invenção do cinema, por seu efeito tridimensional e profundidade.
Redescoberto quase que por acaso, Jansson, um dos precursores do fotojornalismo brasileiro, imortalizou cenas da revolta Federalista, em 1893, das revoluções de 1924, 1930, 1932, e da Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916.
''Produzíamos o livro 'Sorocabana, uma saga ferroviária'. Fomos até a prefeitura de Itararé procurar fotos antigas. Falaram que a família Jansson tinha uma de Getúlio Vargas, desembarcando na região, na famosa Batalha de Itararé. Para surpresa nossa, deparamos com o acervo do fotógrafo'', lembra o jornalista Vito D' Alessio.
Ele é autor do livro bilingue ''Claro Jansson - O fotógrafo viajante'', da série Documentaristas da América Latina, publicado pela Editora Dialeto Latin American Documentary, única no mundo especializada em documentários sobre a América Latina.
No mesmo ano, o fotógrafo também ocupou o Museu da Imagem e do Som (MIS), com os registros históricos da saga ferroviária, da produção de erva-mate, documentando as transformações urbanísticas do início do século de Buenos Aires, na Argentina, e do Rio de Janeiro.
Apesar de não ser um autor de referência como Marc Ferrez e Augusto Malta, Jansson escreveu uma obra única da colonização do região Sul e Sudeste do país e de momentos turbulentos brasileiros.
Os primeiros gracejos da história brasileira para o fotógrafo, que nasceu em Hedemora, cidadezinha na região central da Suécia, na província de Dalecarlia, em 1877, conquistaram-no logo que imigrou para o Brasil, em 1891.
Para Jansson, a história também reservou uma vestimenta épica ao se tornar um personagem que passou de maneira anônima, mas sobressaltada de aventuras por entre os verdadeiros protagonistas.
''Numa das revoluções que meu avô acompanhou, um oficial de Floriano Peixoto pediu para buscar mais couros curtidos, dando uma mula para a viagem. Meu avô pegou o animal e não voltou para a frente da batalha'', conta a neta Jandira.
O próprio Jansson narrou o episódio da Revolução Federalista, durante o Cerco da Lapa, na carta que enviou para a irmã Anna Christina, que não embarcou no navio com o fotógrafo, o pai, André, a madrasta e os irmãos.
''Eu, então, chicoteei e esporeei a mula que correu muito rápido, o couro deixei onde ficara e, por fim, estava novamente em casa! Não passei fome nenhuma, pois tinha dois sacos cheios de comida que a mula estava levando e que pertenciam ao capitão e esqueci de deixá-los; por isso, não me faltou comida, acredite'', contou Jansson.
Para a produção do livro, os editores fizeram o caminho de volta até a Suécia, encontrando o sobrinho-neto do fotógrafo, Bengt Lovén, um dos filhos de Anna Christina. Ele tinha as cartas originais de Jansson. O material foi traduzido pela filha do sueco, Dorothy Jansson Moretti.
SERVIÇO:
Livro de Claro Jansson - O fotógrafo viajante/Texto de Vito D'Alessio
Série ''Documentaristas da América Latina''/Dialeto Latin American Documentary
Patrocínio: Agfa e Gevaert
Preço recomendado: R$ 98,00


