Herança britânica plantada no Norte
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 2009
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
A mata fechada cobria tudo quanto a vista alcançava, mas o visionário britânico Lord Lovat, inspirado pelos ideais imperialistas, enxergou na região Norte do Paraná um potencial que nem mesmo os brasileiros daquele início dos anos 1920 tinham percebido. O nobre expedicionário criou a Companhia Parana Plantations Limited, construiu uma ferrovia e a partir de 1924 deu vazão ao plano de colonização baseado em pequenas cidades ligadas pela estrada de ferro.
Investigada sob o ponto de vista do empreendedor, esta história compõe o livro ''As cidades plantadas - os britânicos e a construção da paisagem do norte do Paraná'', do arquiteto e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Renato Leão Rego. Ele avalia que quase nove décadas depois, as ideias britânicas continuam repercutindo na região e ainda podem contribuir para o planejamento da região.
Em entrevista à FOLHA, Rego conta que a pesquisa começou em 2001: ''Fiquei impressionado com Maringá, arborizada, bonita, agradável, e com o traçado diferenciado''. Debruçou-se sobre o desenho urbanístico da parte mais antiga da cidade emancipada em 1947, estudou também as cidades vizinhas e concluiu o trabalho em Londres, nos arquivos da Parana Plantations, empresa responsável pela colonização da região e que a partir de 1944 passaria a se chamar Companhia de Terras Norte do Paraná.
Segundo pesquisas realizadas por Rego, a colonização não foi um fato isolado, fruto apenas da audácia de um aventureiro. ''Isso é parte da história do Império Britânico e o que fizeram aqui tentaram fazer em outras partes do mundo'', como na África do Sul. Ou seja, a ação britânica no Norte paranaense não deixou de ser uma expressão das ideias imperialistas da época, com objetivo de vender lotes de terra, assentar colonos e explorar a ferrovia.
Além disso tudo, o planejamento urbano adotado pelos britânicos carrega outras peculiaridades, diz o arquiteto. ''Aquele oblongo (curva) no Centro de Londrina, abaixo da Catedral (onde hoje fica parte do Calçadão), é porque era o desenho da curva de nível. O Centro da cidade de Cambé também é um semi-círculo porque era a curva de nível. Mesma coisa em Rolândia, Apucarana e Mandaguari.''
Rego complementa que outra preocupação evidente foi associar cidade e campo, diminuindo as distâncias entre os centros urbanos e criando um cinturão verde em volta destes núcleos. Tudo interligado pela estrada de ferro. ''Os pesquisadores ingleses ficaram espantados, porque aqui se deu o que planejaram lá mas não conseguiram, pelo menos em um primeiro momento: pequenas cidades próximas mas independentes, conectadas por ferrovias, chamadas de cidades sociais, onde uma oferece serviços que complementa a outra.''
Conforme Rego, as ideias implantadas na região contribuíram para o rápido desenvolvimento da região e refletiram na qualidade de vida da população, muito embora parte destes benefícios tenha sido engolida pela urbanização desenfreada a partir dos anos 1970. Tanto é que o arquiteto aponta que ainda hoje especialistas ingleses em planejamento urbano veem as ''cidades sociais'' como a melhor possibilidade de se pensar em cidades sustentáveis, inclusive ecologicamente.
O arquiteto analisa que ''a base física das cidades norte-paranaenses herdada dos ingleses'' poderia ser muito útil atualmente. ''Se tivermos em mente esta experiência bem sucedida de quase 100 anos, se entendermos como tudo foi feito e porque deu certo, podemos reaplicar algumas noções. A ideia de pensar na rede de cidades, no coletivo, nessa ligação cidade e campo, é possível de ser aplicada ainda hoje'', conclui.


