''Mange, mange, bon bagai'' (comida, comida, sangue bom). Passando as mãos sobre a barriga, com os olhos arregalados e famintos, as crianças cercam os estrangeiros implorando por comida. Lixo espalhado por todo lugar, esgoto correndo a céu aberto, trânsito para lá de caótico, construções abandonadas, centenas de pessoas nas ruas tentando conquistar alguns trocados, vendendo os mais diversos e bizarros produtos.
Bem-vindo ao Haiti. Assim é a recepção para quem chega ao país mais pobre das Américas. Se você chegar à noite, o susto pode ser ainda maior. Uma cidade de 2,5 milhões de habitantes pontuada por raros pontos de luz, provavelmente oriundos das casas mais opulentas, que contam com gerador de energia.
O Haiti ocupa o terço oeste da Ilha Hispaniola, a segunda maior das Grandes Antilhas, no Mar do Caribe. Já foi considerada a mais próspera colônia francesa no continente americano, riqueza conquistada com exportação de açúcar, cacau e café.
No entanto, a exploração do trabalho escravo fez seu povo forjado pelo sofrimento lutar até a conquista do título de primeira república negra do mundo. Porém, sua história de nação livre tem sido permeada por disputas internas, golpes de estado e violência.
Com 640 km de extensão entre seus pontos extremos, a ilha tem o formato semelhante à cabeça de um caimão, pequeno crocodilo abundante na região. Os 8,5 milhões de habitantes dividem território um pouco maior que Sergipe, o menor estado brasileiro.
Pobre em recursos minerais, com a agricultura, comércio e setor de transporte em estado letárgico, o Haiti está no topo de listas trágicas. São 80% de desempregados; o país tem o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Américas; a Aids se espalha por aproximadamente 7% da população. Lá a fome é tamanha que parte da população come uma espécie de bolacha, chamada ''Té'', composta de argila, sal e manteiga.
Na região metropolitana de Porto Príncipe, município de Petionville, onde vive a elite local, a situação é diferente. A região é composta por hotéis de luxo, supermercados, restaurantes, mansões, carros novos e sofisticados, galeria de arte, vendedores de flores nas ruas, enfim um lugar que poderia ser confundido com algum bairro nobre de Curitiba. O choque é inevitável, uma dezena de quilômetros separam as bolachas de argila da requintada culinária francesa.
Essa grande desigualdade social deixa os haitianos céticos em relação ao futuro. Pierre Andregene, 57, tem curso superior, fala quatro idiomas e trabalha atualmente como intérprete do batalhão brasileiro.
''Meu povo, infelizmente, não tem conhecimento da democracia. O que significa democracia quando a gente não pode ir à escola, não pode comer um prato quente? Se o governo atual não fizer nada para aliviar a pobreza do povo, o Haiti de 2004 e 2005 vai retornar'', desabafa, com olhar melancólico.
A derrocada econômica o faz sentir saudade do regime déspota de François (Papadoc) e Jean Claude Duvalier (Babydoc). ''Em governos anteriores, o Haiti chegou a ser chamado de pérola das Antilhas, pela sua beleza e facilidade para viver. O ditador progressista (Papadoc), adotava o lema braço firme e mão amiga. Após a saída dos Duvalier, em 1986, os turistas foram embora e a violência e a pobreza explodiram.''
Quando questionado sobre as atrocidades cometidas pelo regime, Pierre muda de assunto. De 1964 até 1986, os Duvalier instauraram uma feroz e sangrenta ditadura, exterminando opositores e perseguindo a Igreja Católica.
A expressão sisuda de Andregene só se desfaz quando o assunto é a seleção brasileira. ''Quando o Brasil ganhou a Copa América você viu alguma comemoração nas ruas?'', indaga um militar que estava próximo da conversa. ''Aqui o país parou, tudo mundo foi para as ruas comemorar. Nunca tinha visto nada parecido no Brasil'', conta o mesmo soldado.
Andregene resume numa frase essa paixão: ''Quando tem jogo entre Brasil e Argentina, a gente aposta esposa, carro, casa e, se o Brasil perder, tem gente que se mata. Conheço pessoas que se mataram''.
Restauração
É nesse caldeirão de fome, esperança e violência que o Brasil está mergulhado desde 2004, quando foi instaurada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a missão da ONU para a estabilização no Haiti (Minustah), para restaurar a ordem. A medida foi tomada após um período de insurgência e a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide.
O comando das forças de paz cabe ao Brasil desde o começo, uma exceção nas missões da ONU, na qual a cada renovação há uma troca de comando. Já passaram pelo Haiti, oito contingentes de 1,2 mil militares brasileiros. Os militares são trocados de seis em seis meses.
Compõem o quadro das forças de paz 7.060 militares e 2.091 policiais civis oriundos de 18 países, entre eles a Argentina, Bolívia, Equador, Jordânia, Nepal, Filipinas e Siri Lanka.
Sangue bom
A população mantém uma boa relação com os militares brasileiros, é comum as pessoas se voltarem para os combatentes e gritarem ''bon bagay'' (sangue bom). Parte dessa boa relação foi conquistada por meio dos Atos Cívicos e Sociais (Aciso), uma característica das tropas brasileiras, na qual distribuem comida, roupas, material escolar e brinquedos, além de organizarem brincadeiras e jogos. Em datas especiais, como Natal e Páscoa, os militares fazem um rateio para comprar presentes e chocolates.
Porém na ONU, no começo da missão, havia quem não gostasse dessa iniciativa. Para essa linha de pensamento, o dever das forças de paz é prover exclusivamente a segurança e restabelecer a ordem. Mas vale ressaltar que os atos cívicos foram fundamentais como meio de aproximação e conquista de confiança, da população local.
No começo da missão, as tropas brasileiras travaram intensos combates com grupos armados.®MDRV¯®MDNM¯ Não há dados oficiais sobre o número de presos e mortos. A pacificação do mais violento reduto de criminosos, a favela de Cité Soleil, a maior do Caribe, vem aos poucos sendo conquistada.
O marco da pacificação foi a ocupação, em 2006, da ''casa azul'', sobrado de três andares utilizado como abrigo e ponto de ataque por grupos armados. Após o combate, o imóvel foi ocupado e fortificado pelas forças de Paz brasileiras.

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