HAITI - 'Não houve caos nem insegurança'
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sábado, 06 de março de 2010
Sergio Ranalli<BR>Editor de Fotografia 
Porto Príncipe - Um paranaense desempenha o papel de elo entre o Brasil e os haitianos, o diplomata Igor Kipman completa dois anos como embaixador do Brasil no Haiti. Quando o terremoto aconteceu estava em Brasília, mas no dia seguinte desembarcou em Porto Príncipe para ajudar a coordenar a ajuda humanitária ao país. Profundo conhecedor do Haiti, o curitibano Kipman conversou com exclusividade com a FOLHA sobre a ajuda que o Paraná está oferecendo, os números da tragédia, os exageros divulgados sobre o terremoto e relatou sua descrença sobre um pacto nacional para reconstrução.
A ajuda paranaense
O Centro de Apoio Científico em Desastres (Cenacid), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), prestou apoio à embaixada brasileira em Porto Príncipe. Os professores Renato Lima e Georges Kaskantzis Neto, da UFPR, e Tiago Marino, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), passaram uma semana na capital haitiana investigando o terreno, coletando dados e entrevistando os membros da comunidade internacional e os habitantes atingidos pela catástrofe. ''Preparam um denso relatório para meu uso. O Cenacid continuará monitorando a partir de Curitiba as réplicas do terremoto que continuarão acontecendo por pelo menos quatro ou cinco meses e possivelmente mandará uma nova equipe, um pouco mais à frente, para apoiar o esforço brasileiro na ajuda à emergência'', revela Kipman.
Além da contribuição técnica o Paraná está enviando ao Haiti ''uma quantidade expressiva'' de sementes. Outra doação importante é o envio de 500 pequenos geradores de energia, doados por associações e empresas privadas, que servirão para fornecer energia para pequenos núcleos familiares nos acampamentos de desabrigados.
O caos e os números do terremoto
''Não existiu toda aquela situação de caos e insegurança divulgados logo após a tragédia, foi exagero. Quem não conheceu o Haiti antes acha que tudo que eles veem é consequência do terremoto e isso não é verdade'', desabafa Kipman.
O embaixador chegou ao Haiti 24 horas após o cismo, rodou de carro por toda capital e não presenciou as cenas propaladas pela mídia. Os estabelecimentos que não foram atingidos pelo terremoto não sofreram pilhagens, só aqueles que ruíram foram alvo de saqueadores. ''Qualquer um de nós que estivéssemos com sede e fome, passando ao lado de um supermercado que desabou e os produtos estivessem expostos na rua, pegaria essas mercadorias e as levaria para a casa afim de alimentar o filho.''
A divergência nos números de mortos divulgados pelo governo haitiano levou muitos a acreditar numa superestimativa na quantidade de vidas perdidas. No entanto o diplomata que acompanhou de perto o processo de contagem garante: ''Não há superestimativa ®MDBO¯®MDNM¯no número de mortos. A Cruz Vermelha acompanhou os enterros coletivos, todos os corpos foram fotografados. Há um desencontro de informações, mas no número de mortos não creio que haja um exagero. Ainda há muita gente sob os escombros a ser contabilizada.''
Entretanto, a quantidade de 1,2 milhão de desabrigados pode ser exagerada. ''Onde eu acho que há um exagero, por falta de um levantamento mais cuidadoso, é no número de desabrigados. Não concordo com o número de um milhão. Eu acreditaria numa cifra em torno de 500 mil. Não é um exagero proposital, mas um exagero para que os meios que estão sendo enviados sejam suficientes para os desabrigados. Pede-se mais para ganhar menos, mas não intencional.''
Pacto político pela reconstrução
A história política do Haiti é pautada pela instabilidade e por golpes de estado. Logo após a tragédia, a comunidade internacional acreditou na criação de um pacto nacional pela reconstrução do país. Mas passados quase dois meses do cismo, artigos ácidos e extremamente críticos ao governo, publicados pela oposição na imprensa local, rompem a trégua proposta.
''Eu tinha muita esperança que um dos benefícios que o terremoto traria seria a criação de um pacto político. Que seria extremamente importante e positivo para a reconstrução do país em bases mais sólidas, inclusive na política. Eu tinha essa esperança nos primeiros dias, fui praticamente todos os dias falar com o presidente e encontrei várias personalidades se colocando à disposição para ajudar no que fosse necessário. Tinha, porque nessas seis semanas que decorreram do terremoto, já houve sinais de que provavelmente estava errado. Já tiveram alguns artigos muito ácidos, muito críticos ao presidente e ao primeiro-ministro. Artigos que nesse momento não contribuem para o país'', revela o embaixador.


