Há pouco a comemorar, e os números comprovam - Ágide Meneguette
OPINIÃO
Há pouco a comemorar,
e os números comprovam
Ágide Meneguette
No Dia do Agricultor os produtores rurais não têm muito a festejar. Na verdade, a situação da grande maioria deles não é para comemorações, mas para lamentações. A queda de renda, a insegurança, as conspirações contra suas atividades têm sido uma constante nos últimos anos, principalmente a partir do grande desastre da safra recorde colhida em 1995, induzida pelo próprio governo, muito mais interessado em mostrar bons índices de controle inflacionário do que realmente cumprir uma política agrícola.
Os números, aliás, comprovam nossa assertiva. Vamos tomar como base a taxa de inflação do Plano Real até hoje, de 58% (Índice Geral de Preços). Basta comparar esta taxa com o comportamento da cesta básica, mais precisamente com o item alimentação, que engloba carne, derivados de trigo e leite, açúcar, feijão, óleos comestíveis, verduras e frutas.
De acordo com levantamento divulgado pela Coordenadoria de Proteção e Defesa do Consumidor - Procon - de São Paulo, a variação da alimentação em todo o período do Plano Real até hoje foi de apenas 10,86%. O que significa que aumentaram 5 pontos percentuais abaixo da inflação.
Este simples cotejo indica sem dúvidas que o setor agropecuário é que vem segurando a inflação, proporcionado comida barata para os brasileiros. Além de alimentar nosso povo, a agropecuária vem prestando um outro grande serviço à nação: saldos líquidos na sua balança comercial de US$ 10 bilhões a US$ 11 bilhões anuais.
Com efeito, não fosse a agropecuária, os déficits das contas do comércio exterior brasileiro - negativas desde quando o governo teimou em manter o real supervalorizado - seriam muito maiores ainda.
Apesar de tudo isso, o produtor rural continua sendo tratado como um pária pelo governo e nem tem a consideração e o respeito que merece da sociedade. Fosse na Europa, nos Estados Unidos ou no Japão, o produtor seria encarado de outra forma. Não é à toa que esses países apóiam seus agricultores, com garantia de preços para suas safras e polpudos subsídios. Sabem que a base do desenvolvimento econômico está alicerçada numa agricultura sólida.
No Brasil é justamente o contrário. O agricultor é o herói apenas nos discursos de campanha. Depois é esquecido. Os instrumentos de garantia de preços, que existiam no passado, foram desativados, os recursos de financiamento minguaram e a nova política é a do salve-se quem puder. Isto é triste. Mais que triste, um disparate, porque labora na contramão da lógica.
Se a Agricultura gera excedentes exportáveis, deveria ser incentivada, para que proporcionasse superávits crescentes em nossa balança comercial. Se os alimentos são baratos e isso segura a inflação, os produtores deveriam ser recompensados, e não punidos, como vêm sendo, com a redução de sua renda.
Produzir, hoje, neste país, virou aventura e uma aventura de que se conhece o final inglório. Preços em queda em todo o mundo, procura-se nos países desenvolvidos dar uma compensação aos produtores. Aqui, deixa-se que ele empobreça, largue a terra e venha a ser mais um miserável na periferia das grandes cidades. Em momento algum o governo atinou para o sentido estratégico de um campo forte, com ânimo e com renda, criando e mantendo empregos, consumindo e movimentando a roda da economia.
Por isso, o produtor nada tem a festejar em seu dia, embora pudesse estar produzindo ainda mais, com mais economia, com benefícios para todo o País. Mas isso só ocorrerá no momento - será que virá ? - em que os nossos governantes tiverem a consciência da importância do campo no desenvolvimento de todo o País.
Ágide Meneguette é presidente da Federação da Agricultura do Estado do Paraná - FAEP





