Há 70 anos, uma rodovia chegava ao futuro do PR
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domingo, 31 de outubro de 2010
Widson Schwartz<br>Especial para a FOLHA 
Sobre a picada que Joaquim Francisco Lopes e John Henry Elliott abriram em 1850 - dela derivando outros caminhos -, os sucessores daqueles sertanistas estabeleceram os diversos trechos da Estrada do Cerne, que o interventor Manoel Ribas consolidaria em 1940, inaugurando-a em 21 de setembro. Testemunha do fato, há 70 anos, Airton Scheffer chegou a São Jerônimo, km 314, provavelmente um ou dois meses antes da inauguração, ainda no inverno, pois ao passar em Barro Preto, no km 224, viu-se debaixo de neve.
Um aparente contrassenso: na estrada servindo a automotores, Ayrton viajava solitariamente numa carroça. Tinha 16 anos e partira de Agudos do Sul. ''Demorei 19 dias e no Barro Preto peguei neve. Nunca mais vi coisa igual'', rememora aos 86 anos de idade. A aventura se devia à atração do pai dele, Alfredo Scheffer, pelo Norte Novo, onde pretendia trabalhar na indústria de Jacob Minatti, em Londrina. Mas acabou estacionando em São Jerônimo (mais tarde São Jerônimo da Serra).
Antiga PR-2, atualmente PR-090, denomina-se oficialmente ''Rodovia Engenheiro Ângelo Lopes'', mas até nos mapas escreve-se Rodovia do Cerne. E aquele ramal até Jacarezinho se transformou na PR-092.
Visando ao Norte Novo, o interventor Manoel Ribas planejou em 1934 uma ligação de ''extraordinário alcance político e econômico'', segundo o então secretário de Obras Públicas e da Fazenda, Othon Muder. Seria o meio ''de tornar o Paraná conhecido e estimado naquela vasta, rica e populosa região, onde o contingente demográfico paranaense é reduzidíssimo em relação à densa população de paulistas, mineiros, nortistas e elementos alienígenas'', segundo Muder. ''Lá, onde sem dúvida alguma está o grande e próximo futuro do Paraná, há ignorância completa do nosso Estado.''
Com o marco zero na Praça Tiradentes, em Curitiba, a estrada alcança Piraí a 158 quilômetros, onde se bifurca: um ramal de 220 quilômetros até Jacarezinho e outro de 322 até Porto Alvorada (atual Alvorada do Sul). Este passa em Jataí, de onde se comunica com a ''florescente cidade de Londrina'' por um ramal de 22 quilômetros.
Distâncias de Curitiba a Porto Alvorada, 480 km; a Jacarezinho, 378 km; a Londrina, 418 km. O governo investiu 18,2 mil contos de réis e o último trecho concluído foi o de 27 quilômetros entre o bairro Santa Felicidade (Curitiba) e o Córrego do Cerne, que dá nome à rodovia. Buscando sempre os espigões a estrada transpôs, com pontes de concreto e madeira, aproximadamente quinze rios. As obras ''principais e finais'' ficaram a cargo da empreiteira Sother Dann.
Sebastião Sutil recordou, em 1998, a matança de oito bois, de uma vez, para alimentar 360 trabalhadores na construção da estrada. Ele mesmo integrou duas turmas de 30 e recebia 7 mil réis e 20 centavos por tarefa, o que significava ''entregar 11 metros prontos para passar a carroça''. A rodovia foi construída a picareta, enxadão e carrocinhas puxadas por burros, as ''gaiotas''.
Em 70 anos desde a inauguração, a estrada teve o leito deslocado em alguns subtrechos e deixou de passar no perímetro urbano de São Jerônimo da Serra. Uma das pontes originais permanece no Rio Lajeado Liso, em Sapopema, com a placa informando o dia da inauguração. As pontes, de concreto armado, têm um padrão e a maioria está no trecho Castro-Campo Largo, ainda sem pavimentação.
Recentemente, a rodovia foi incluída no programa ''Estradas da Liberdade'', do governo Requião, para ser uma das alternativas àquelas sob pedágio, desde que sejam pavimentados os cerca de 160 quilômetros entre Piraí do Sul e Bateias. Até o momento, além dos 15 quilômetros concluídos adiante de Bateias, só há obras (terraplanagem) no subtrecho mais favorável, Castrolanda-Abapã, cerca de 17 quilômetros. Adiante, trecho mais acidentado, cerca de 40 quilômetros repleto de curvas, não existe nenhuma obra.
Se Airton Scheffer resolvesse percorrê-lo hoje, encontraria o panorama de 70 anos atrás.


