São 18 horas de uma quinta-feira em Curitiba. Centro da cidade. O engarrafamento é inevitável. Intermináveis filas de carros se formam em todas as ruas, exigindo uma boa dose de paciência dos motoristas, que não têm outra alternativa a não ser esperar. Enquanto isso, motoqueiros ziguezaguei-am entre os veículos parados até chegar à frente do primeiro carro. Quando o sinaleiro abre, as motos são as primeiras a arrancar, até chegarem ao próximo engarrafamento, onde driblam novamente as filas de carros parados até passar à frente.
  ‘‘Já me arrancaram o espelho umas três vezes, eles abusam, atravessam na frente. Se a gente não der espaço para passarem, eles acabam batendo no carro da gente, e são só aqueles que têm a caixa atrás’’, revolta-se o taxista Nelson Martins, de 72 anos. A reclamação de Martins, que trabalha há mais de 50 anos nas ruas de Curitiba, revela uma opinião quase unânime entre os motoristas, que acham que os motoboys ‘‘são todos uns loucos no trânsito’’.
  ‘‘Motoqueiro é uma loucura, eu já fui um também. Atrapalham muito o trânsito, cometem muita infração, vivem com pressa’’, complementa o também taxista Pedro Moreira, de 47 anos, que acha que é preciso encontrar um meio-termo nessa polêmica. ‘‘Os dois têm que conviver. O motoqueiro tem que ver que os carros também têm direitos, não são só eles.’’
  A categoria responde com a mesma moeda, deixando claro que existe uma hostilidade mútua entre motoristas e motociclistas. ‘‘Há um desrespeito total à moto, eles não deixam espaço, fecham’’, avalia Anderson Maikon Guenze, de 24 anos, que de dia tem carteira assinada, fazendo entregas para uma fábrica de massas, e à noite complementa a renda entregando pizzas. ‘‘Motoqueiro é bem pouco respeitado. Claro que tem motoqueiro que é louco mesmo, mas tem muito motorista que não respeita moto’’, completa Ronildo Rodrigues, de 35 anos, que entrou na profissão de entregas com moto há menos de dois meses. Com carteira assinada, ele trabalha apenas durante o dia.
  A cena e a hostilidade são típicas de qualquer cidade, mas não podem passar desapercebidas, uma vez que a convivência entre esses dois tipos de condutores é inevitável e quanto mais tranqüila for, melhor será para o trânsito em geral. Curitiba tem hoje 1 milhão de carros e quase 100 mil motocicletas e motonetas (até 100 cilindradas), o correspondente a menos de 10% da frota automobilística.
  São os números sobre acidentes que mostram o lado frágil da profissão do motoboy. Até abril deste ano, segundo dados do Batalhão de Polícia de Trânsito
(BPTran) foram registrados 7.544 acidentes em Curitiba. Desses, 1.379 envolveram motos e motonetas. O ditado ‘‘o pára-choque da moto é a cabeça do condutor’’ aparece também nas estatísticas: quase a totalidade dos acidentes com esse tipo de veículo resulta em vítimas. Dados do serviço do Siate do Corpo de Bombeiros dão conta de que em 5.043 acidentes atendidos, 5.092 tiveram vítimas, entre condutores e caronas.
  O advogado e consultor de trânsito Marcelo José Araújo adverte sobre a responsabilidade de cada lado. O motociclista que passa entre as filas, segundo ele, não está desobedecendo nenhuma regra de trânsito, uma vez que o dispositivo que tratava do assunto não foi incluído no Código de Trânsito. Mas assim como motoristas devem ter cautela na hora de abrir as portas, ele lembra que, ao colidir com espelhos retrovisores, cabe aos motociclistas a reparação do dano.

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